Revistas Terra e Superinteressante relatam
como os fatos bíblicos têm sido confirmados pela
Ciência.
A revista Terra (no. 133, maio/2003, Editora
Peixes) traz a surpreendente matéria: "A Ciência
encontra a Bíblia: recentes descobertas arqueológicas
confirmam fatos e personagens das Escrituras". Em julho de
2002 a revista Superinteressante trazia uma reportagem dizendo
que muitos dos fatos e personagens bíblicos não
passariam de lendas. Apesar do "ar científico"
da matéria, foi demonstrado em textos de várias
revistas e na internet que a reportagem de Vinicius Romanini,
autor da matéria, foi tendenciosa e omitiu vários
lados da questão (ver a série de matérias
Bíblia Sagrada: Verdade ou Mentira no menu ao lado que
mostra como Romanini errou em suas afirmações).
A matéria de Klester Cavalcanti na revista
Terra não afirma uma crença inabalável na
Bíblia, e contém alguns equívocos que precisam
ser esclarecidos (como o faremos mais adiante), porém é
uma matéria que busca ser imparcial, mostrando o outro
lado da questão, deixando a conclusão para o leitor.
Veremos alguns pontos da matéria que
achamos interessantes ser comentados.
Em busca da fama...
Ao contrário do que muita gente pensa,
os arqueólogos e outros cientistas, não são
totalmente um grupo de homens sérios e imparciais em busca
da verdade dos fatos. Muitos buscam a fama. Negar ou afirmar fatos
do livro mais lido do mundo, com certeza, atrairia a fama para
tal cientista. "Encontrar algo que comprove ou contrarie
um relato da Bíblia é o sonho de todo arqueólogo
bíblico", diz a matéria citando o arqueólogo
inglês Charles Warren (p.46). O arqueólogo israelense
Gabriel Barkai explica o porquê: "Um achado desse tipo
pode transformar um pesquisador totalmente desconhecido numa celebridade
da sociedade científica internacional"(p.46). Ou seja,
negar ou afirmar a Bíblia dá ibope.
Tu és pó...
O avanço do conhecimento científico
nos ajuda, em alguns casos, a corrigirmos concepções
erradas sobre os relatos bíblicos (principalmente quando
tomamos algumas expressões ao pé da letra). Porém,
jamais devemos abandonar a verdade bíblica em nome de teorias
científicas. "A criação do homem a partir
do barro já é considerada até mesmo por muitos
teólogos como meramente figurativa", diz a matéria,
que em seguida cita Gilberto da Silva Gorgulho, frei e mestre
em Teologia: "Há 200 anos as pessoas ainda se irritavam
com isso. Hoje em dia, com o avanço da ciência, precisamos
aceitar que é uma narrativa ilustrativa, cuja missão
é mostrar Deus como o Criador"(p.46). Enquanto os
teólogos abandonam a Bíblia, os cientistas parecem
estar comprovando-a. A revista Superinteressante (abril/2003)
traz uma reportagem sobre a origem da vida (pp.72-77) e relata
como os cientistas têm descoberto que a vida pode existir
e surgir em condições muito adversas, e que a matéria
inorgânica pode ser a base do surgimento da vida. Dentro
dos estudos apresentados destaca-se o do químico Graham
Cairns-Smith, da Universidade de Glasgow. Diz a matéria:
"O curioso é que algumas pesquisas estão realçando
o papel de um elemento citado com essencial na formação
da vida na Terra, segundo o relato mitológico bíblico
da criação: o barro. A argila seria a chave do mistério
de como compostos orgânicos simples saltaram para a condição
de material genético auto-replicante (...)Na verdade ,
segundo ele, o barro teria sido a primeira substância genética,
que ele chama de cristal-gene. Como se sabe, os cristais, inclusive
os de barro, são auto-replicantes. E se a auto-replicação
é um traço fundamental dos seres vivos, então
dá para admitir que a vida pode ter recebido um empurrãozinho
daquelas substâncias inorgânicas para obter suas primeiras
cópias. Outros biólogos acham que a argila foi o
meio onde se formaram moléculas de RNA(ácido ribonucleico,
que transcreve e traduz a informação genética)...
"(pp. 75-76). Assim vemos que enquanto alguns teólogos
negam que a vida possa ter começado do barro, alguns biólogos,
não baseados na Bíblia, mas em suas pesquisas, afirmam
que o barro faz parte da vida.
"Eis o mistério da Fé..."
Sobre a ressurreição de Cristo,
a revista diz que esse fato é um mistério de fé
e que não pode ser provado pela Ciência. Esta é
uma análise equilibrada levando em conta que a matéria
não defende nenhum credo religioso. Porém, é
necessário comentar que geralmente, e a grosso modo, os
cientistas consideram um fato comprovado pela Ciência o
fato que puder ser repetido em laboratório ou reunir evidências
suficientes que o considerem viável. A ressurreição
de Cristo não pode ser reproduzida em laboratório
e não se vê as pessoas hoje ressuscitando (isto é,
não há nenhum caso documentado ou divulgado pela
mídia). Mas, será que não existem evidências?
O túmulo vazio é uma delas, mas existem outras que
serão comentadas em artigo posterior. Portanto, não
abandone a fé na ressurreição por que os
cientistas não conseguem explicar esse fato. A Ciência
até hoje não tem resposta sobre uma série
de fatos (a natureza da luz, a cura da AIDS, por exemplo).
"Quod scripsit, scripsi"
"Até hoje os arqueólogos
não encontraram nada que pudesse comprovar a autoria de
nenhum livro bíblico" (p.47). Os arqueólogos
também não encontraram nada que comprove que Heródoto,
Xenofonte, Tucídides, Tácito, Platão, e todos
os escritores antigos escreveram as obras que são atribuídas
a eles, porém ninguém contesta a autoria deles.
Todos acreditam que Júlio César escreveu o livro
De Bello Gallico (Das Guerras Gauleses) em torno de 100-44 a.C.
Mas qual a prova que temos que ele realmente escreveu a não
ser o testemunho do próprio livro e de autores posteriores?
Existem vários manuscritos, mas apenas 9 ou 10 estão
em boas condições, e o mais antigo dista cerca de
900 anos depois da época em que foi escrito. Se quisermos
negar os autores bíblicos também devemos negar os
autores greco-romanos.
Os autores bíblicos têm mais evidências a seu
favor do que os demais autores antigos:
a) As confirmações arqueológicas mencionadas
no texto da própria revista;
b) A crítica textual tem demonstrado que o texto da Bíblia
é o texto antigo mais preservado e bibliograficamente confirmado;
c) Em relação aos Evangelhos, embora o texto em
si, não traga os seus nomes, os manuscritos mais antigos
os trazem no cabeçalho. Além disso, existem as evidências
da tradição cristã antiga dos Pais da Igreja
confirma essa atribuição e o próprio texto
bíblico dá indícios de que essa atribuição
é verdadeira. Por exemplo, sabe-se que Mateus era um coletor
de impostos, e sua profissão se reflete no texto, pois
é o evangelho que menciona que ele era publicano (Mateus
10.3) e o que mais trata de assuntos relacionado a dinheiro (Mateus
22.19[explicita a moeda do denário]; 17.24-27[só
ele trata desse imposto]). O mesmo pode se dizer dos demais evangelhos:
O que sabemos dele pelos informes antigos é confirmado
pelo texto.
A matéria afirma que o manuscrito mais antigo do Novo Testamento
são os fragmentos de papiro do evangelho de João
de cerca 130 d.C.(p.47). Isto demonstra ignorância ou omissão
dos fragmentos de papiro da gruta 7 de Qumran que trazem o texto
de Marcos 6.52-53 que datam de 50-60 d.C. E também trechos
do capítulo 26 de Mateus identificados como sendo de meados
do século I d.C. Ou seja, ambos datam da época em
que as testemunhas oculares de Jesus e dos apóstolos ainda
viviam.
Em relação a Moisés ter
escrito o Pentateuco, as diferenças literárias não
são empecilho para a sua autoria, pois este obviamente
utilizou outras fontes para falar sobre os tempos anteriores ao
seu nascimento. Para evidências da existência de Moisés
e de sua autoria do Pentateuco, veja no menu ao lado o artigo
Bíblia Sagrada: Verdade ou Mentira I.
Como "nasceu" a Bíblia?
Ao tratar de como "nasceu" a Bíblia
a matéria comete alguns deslizes: "A primeira compilação
que se tem da Bíblia que aparece na estante de fiéis
do mundo inteiro foi feita por estudiosos gregos" (p.47).
Informação errada. A Bíblia foi compilada
ao longo de vários séculos, sendo que o historiador
judeu Flávio Josefo dá o testemunho de que o Antigo
Testamento foi completado pelos judeus na época de Esdras
e Neemias (século V a.C.). Em cerca de 250 a.C. o rei grego
do Egito, Ptolomeu II Filadelfo, patrocinou a tradução
do Pentateuco do hebraico para o grego para facilitar a leitura
para os judeus do Egito. Essa tradução não
foi realizada por gregos e sim por sábios judeus (segundo
a tradição, 72 sábios, o que valeu o nome
para a tradução de Septuaginta). Ao longo dos anos
os outros livros bíblicos foram sendo traduzidos para o
grego.
Quanto à informação de
que o Novo Testamento foi compilado por volta de 200 d.C., também
é incorreta. Embora todos os livros do Novo Testamento
já tivessem sido escritos e circulassem pela Cristandade
por essa época, os manuscritos mais antigos testemunham
várias compilações, e que só pelo
século IV é que foram compilados como os temos hoje.
"Se a Bíblia nasceu assim? A ciência
não pode dizer". Esta afirmação é
imprecisa. Disciplinas científicas como História,
Crítica Textual, Papirologia, Arqueologia, Filologia podem
mostrar como a Bíblia foi formada e compilada ao longo
dos anos.
Já comentamos
A respeito do Dilúvio, Abraão,
Moisés, as pragas do Egito, Davi e Salomão sobre
os quais a revista trata, já comentamos na série
Bíblia Sagrada: Verdade ou Mentira. A abordagem da matéria
de Terra é equilibrada e objetiva.
Jesus - um homem histórico
Ao tratar de Jesus e de seu tempo, a matéria
mostra como algumas descobertas dão indícios de
confirmação dos relatos dos Evangelhos. Porém,
nesta parte a matéria comete alguns deslizes. Diz o texto:
"O único relato a respeito de Jesus aceito por historiadores,
arqueólogos e filólogos está no livro Antiguidades
Judaicas, do historiador Flávio Josefo." Esta informação
está incorreta. Primeiro que o pronome "todos"
é um exagero, e embora o testemunho de Flávio Josefo
seja importante, ele não é o único:
- Em cerca de 52-54 d.C., o historiador romano Tácito escreve
em seus Anais (XV.44) que Cristo morreu crucificado sob o governo
de Pôncio Pilatos;
- Plínio, o Jovem, em cerca de 112 d.C., governava a Bitínia,
e escreve ao imperador Trajano solicitando instruções
de como lidar com os cristãos. Em uma de suas cartas (Epístolas
X.96) menciona o culto cristão e pessoa de Cristo sem tratá-lo
como lenda;
- Suetônio, outro historiador romano, em c. 120 d.C., menciona
em suas obras Vida de Cláudio 25.4 e Vida dos Césares
26.2 a pessoa de Cristo e os cristãos;
- Luciano de Samosata, escritor satírico do século
II d.C., em sua obra O Peregrino Passageiro menciona Cristo como
um sofista palestino que foi crucificado.
- O Talmude (comentários e interpretações
dos antigos rabinos judeus, c. 100 a 500 d.C.) menciona Yeshu
(Jesus) de Nazaré que foi pendurado no madeiro na véspera
da Páscoa.
"A história de Jesus é o ponto principal do
Novo Testamento e contada nos quatro evangelhos - Mateus, Marcos,
Lucas e João. Contra os quatro livros está o fato
de até hoje não ter sido encontrada nenhuma evidência
de que seus autores foram os próprios apóstolos."
Em relação há não
haver evidências de Mateus, Marcos, Lucas e João
escreveram os Evangelhos, já comentamos acima. A matéria
afirma erradamente: "Os vestígios de originais mais
recentes datam de 130 d.C., quando os discípulos já
estavam mortos" (p.56). Esta informação está
errada porque ignora fragmentos de papiros dos evangelhos de Marcos
e Mateus, os quais provêm da época dos apóstolos,
e os estudos lingüísticos que revelam que os Evangelhos
refletem o aramaico (a língua de Jesus e dos apóstolos)
e uma época mais antiga.
Em 1972 o papirólogo e paleógrafo
jesuíta Pe. José O'Callaghan identifica o fragmento
7Q5 com uma passagem do Evangelho de Marcos, Mc 6.52-53. Este
fragmento data da década de 50 d.C. Em 1994, o papirólogo
alemão Carsten Peter Thiede identificou fragmentos antigos
de papiro com trechos do Evangelho de Mateus guardados no Magdalen
College, em Oxford, Inglaterra. São três fragmentos
do capítulo 26 de Mateus, escritos na frente e no verso.
Thiede constatou que eles possuíam uma escrita que não
era de uma data tardia (início do segundo século,
como se presumia anteriormente) mas deveriam ter sido escritos
no máximo pelo ano 50 d.C.
Portanto, esses fragmentos mostram que os Evangelhos
datam da época em que ainda viviam as testemunhas oculares
dos fatos relacionados a Jesus. Além disso, o exame do
texto grego dos Evangelhos mostra que eles refletem o idioma original
dos primeiros discípulos e o ambiente onde se deram os
fatos.
A matéria de Terra não podia
ignorar esses fatos. Portanto concluímos com as palavras
do Padre José Miguel Garcia, estudioso do assunto: "Ao
nosso entender uma das causas pelas quais se questiona o valor
histórico dos Evangelhos é o fato de terem sido
escritos para cristãos, por testemunhas que não
são neutras. Todavia, ninguém rechaçou o
valor histórico dos dados biográficos de Sócrates
transmitidos por seus discípulos, Xenofonte e Platão,
e nem se nega a realidade das façanhas de César
narradas por ele mesmo, ou seja, por testemunhas interessadas.
Mas na realidade o verdadeiro motivo de que se tenha introduzido
a dúvida sobre a fidelidade dos Evangelhos, é que
se julga impossível o que afirmam: que Deus se tenha feito
homem" .
A matéria não poderia ignorar
esses dados.
Em seqüência, a revista fala da
urna funerária de Tiago, irmão de Jesus. Embora
a fé cristã não dependa da Arqueologia, e
sim da Bíblia, sempre é bem vinda uma descoberta
que testifique o texto bíblico.
Conclusão
A matéria de Cavalcanti, apesar de alguns
erros, testemunha que o Cristianismo não está baseado
em lendas, e sim em eventos e pessoas verificáveis no tempo
e no espaço. Cabe aos cristãos tornarem real, em
suas vidas, os ensinos de Jesus, pois de nada adianta descobrirem
pedras, martelos, urnas, vestes, papiros, ou os originais da Bíblia,
se não descobrirmos a vivência dessa mensagem que
dividiu a História em duas partes: antes e depois de Cristo.
Se não houver essa divisão na vida de cada cristão,
vã será toda descoberta.
Graça e Paz!
Joalsemar Araújo