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Origens E Reflexões
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Diácono, Professor de Escola Biblica Dominical e Bibliologia do Seminário Vida Nova.

 
   

 

 

Mais um ano eleitoral e a velha dúvida volta a rondar a cabeça do povo de Deus: a Igreja deve se envolver com política? Há pessoas que argumentam que o meio político é tão corrompido que não conseguem ver como alguém pode ser cristão e político ao mesmo tempo. Porém, isso é confundir política com politicagem. Política é a arte de governar e tem por filosofia a conduta ideal do Estado; politicagem são as artimanhas mesquinhas e inescrupulosas de quem detêm algum poder político para se favorecer ou ao seu partido, sempre resultando em prejuízo para o povo.

A Igreja deve se envolver com política, mas não com politicagem. Não existe área da sociedade humana em que o Evangelho não possa ser vivido; se assim não acontece não é culpa do Evangelho, mas do cristão que em determinado meio não correspondeu à altura da mensagem cristã. Jesus diz que somos sal da terra e luz do mundo (Mateus 5.13,14), portanto, devemos como Igreja, alcançar todas as áreas da sociedade, inclusive a Política.

Por isso, nós do Projeto Vida Nova temos trabalhado em um projeto político desde as últimas eleições (2002) crendo que a Igreja do Senhor também tem responsabilidade nesta área. Entendemos que a Política, quando praticada sob princípios cristãos, pode ser uma benção e não uma praga para nossa nação.

Entendo que muitas pessoas têm aversão ou indiferença à política pelos seguintes motivos:
a) Decepção com os políticos. Apesar de o Brasil ter uma história cheia de grandes políticos, o povo brasileiro anda decepcionado com a política. A abertura democrática depois do Regime Militar permitiu muitas conquistas políticas, mas também deu ensejo para que uma corja de aproveitadores permanecesse e outra se infiltrasse na vida pública; com o fim da censura, a Imprensa tem liberdade de investigar e expor os agentes e atos públicos, mostrando a grande corrupção que assola todas as esferas da República. Observando isso, o povo brasileiro automaticamente desconfia de todos os políticos; prevalece a inversão do princípio jurídico: “todo homem é inocente até que se prove o contrário” concluindo que todo político é corrupto até que se prove o contrário.

b) Dicotomia Igreja-Estado. O princípio básico do Evangelho para a relação Igreja-Estado é dar a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus (Marcos 12.17). No decurso de sua história, a Igreja procurou discernir mais exatamente o que pertencia a quem, o que não impediu abusos: Igreja e Estado fundiram-se e muitas vezes a Igreja (seja nos ramos católicos, protestantes ou ortodoxos) usurpou funções do Estado, e outras tantas vezes o Estado usurpou funções da Igreja. Depois da Reforma Protestante, procurou-se mais intensamente separar a Igreja do Estado, o que com o tempo gerou um outro extremo: a Igreja nada tem a ver com o Estado e implicitamente, com a política. Muitos ramos do Protestantismo enfatizaram mais o pregar, o levar a Palavra de Deus, e o lado social e político ficou um tanto esquecido. E houve ramos que enfatizavam o lado social e político, negligenciavam a pregação do Evangelho como solução para os mais essenciais problemas do homem. Não precisa haver esses extremos, ou evangelizar ou sociopolitizar, e sim conciliação.
Como se sabe, a maioria das igrejas evangélicas brasileiras são frutos das missões norte-americanas e européias, as quais orientavam a seus missionários a enfatizar a evangelização e não se envolver com os problemas sociais e políticos (para não criar atritos com o Governo e comprometer a Missão). Com o decorrer do tempo, a Igreja brasileira se envolveu com as áreas sociais e culturais (estão aí diversos colégios, faculdades, seminários, cursos de música evangélicos, bem com várias organizações de ação social), mas herdamos de nossos Pais na Fé a timidez em relação à área política, e muitas vezes a Política acabou por ser demonizada, a ponto de que, para muitos, ser cristão e ser político é uma contradição.
Mas precisa ser assim?

Creio que não. Como foi dito acima, temos que ser sal e luz, não do mundo gospel, mas do mundo perdido. É hora da Igreja se levantar e influenciar a Política. O fato de haver muitos corruptos na Política não deve intimidar a Igreja, pelo contrário, deve estimulá-la a desafiar a corrupção colocar nas esferas do poder público pessoas que tenham o caráter de Cristo; pessoas que antes de serem cidadãos do Brasil, são cidadãos do Céu. “Mas tem político evangélico que também é corrupto!” Infelizmente sim, mas isso não é desculpa para nos omitirmos. Se tivermos que deixar alguma área da sociedade por que nela há evangélicos corruptos, teremos que deixar trabalho, escola, igreja, etc., e também a própria Terra e viver como eremitas em algum planeta distante.

Hoje temos um privilégio que os cristãos da época Novo Testamento não tiveram; na época deles, como eles podiam influenciar o Governo? Praticamente só orando. Não havia democracia, e sim a monarquia imperial romana. Hoje, além de orarmos (o que é fundamental), podemos fazer parte do Governo; podemos colocar no Governo pessoas que amam a Deus e ao próximo, e que farão do cargo público um canal de benção para todo o povo. Podemos impedir que sejam aprovados projetos iníquos contra a sociedade, podemos levantar a voz a favor do povo; podemos abrir mais portas para a assistência social. E a separação entre a Igreja e o Estado? O Estado deve ser separado da igreja, no sentido de não ter uma religião oficial e proibir outras; mas isso não impede que Estado e Igreja sejam parceiros.

Não deve haver políticos evangélicos por causa dos evangélicos. Nós do Projeto Vida Nova, e creio que muitos fazem coro conosco, entendemos que o cristão político deve atuar em favor do povo em geral, e não exclusivamente dos crentes; da Igreja, Jesus cuida. Portanto, deve ser repudiada toda proposta política que persiga outras religiões.

Um projeto político não é só oportuno, mas necessário, pois a Política aguarda com expectativa a manifestação dos filhos de Deus.

Se você é cristão e não gosta de Política, não tem problema; com certeza você gosta da expansão do Reino de Deus, e é por isso que política passa a ser um assunto que te diz respeito e, do qual você, como cristão, não pode se omitir. A Igreja precisa executar um projeto político, isto é, influenciar a Política através de políticos comprometidos com o Reino de Deus.

É um desafio e tanto, mas a Bíblia diz que “Em Deus faremos proezas; porque ele é que pisará os nossos inimigos”.(Salmo 60.12).

Graça e paz!

Joalsemar Araujo.