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Diácono, Professor de Escola Biblica Dominical e Bibliologia do Seminário Vida Nova.

 
   

 

"Eu quero é Deus! Seja lá quem ele for..." - Reportagem do Globo Repórter discute a religiosidade brasileira.

Em 11 de julho de 2003 o programa jornalístico Globo Repórter da Rede Globo de Televisão exibiu uma reportagem sobre a religiosidade brasileira, a qual manifesta-se em muitas diversidades de culto, desde os mais paramentados (como o culto da Eubiose, onde os adeptos usam roupas muito adornadas) até os mais, digamos, simplistas (como os adeptos de uma comunidade alternativa em Goiás que é adepta do nudismo como expressão religiosa).

A conclusão da reportagem é que o Brasil é um país tolerante. Embora ainda haja muito que percorrer, segundo a reportagem, a tolerância religiosa brasileira é fruto da formação social do Brasil, que é baseada na mistura de raças e costumes, o que resulta em diversidade de credos. E a convivência exige tolerância para poder se viver bem com o próximo.

A reportagem me fez refletir na minha posição como cristão num mundo "plurirreligioso". Devo simplesmente apontar meu dedo e mandar todo mundo para o Inferno? Ou devo ceder a pressão mundial e dizer que todos os caminhos levam a Deus, e que ser cristão é mais uma opção em vez de ser a única que nos leva ao Pai? Existe um meio-termo entre estes dois extremos?

Primeiramente temos que ver a situação como um desafio, o qual não é novo na história do Cristianismo. Como descreve J. N. D. Kelly a respeito dos primeiros séculos depois de Cristo: "O mundo em que a Igreja fez um progresso triunfal, embora às vezes doloroso, estava ávido por religião [grifo meu].Os monumentos de todos os tipos que ainda sobrevivem testemunham o anseio desesperado que todas as classes sentiam por uma certeza de vitória sobre a morte e o destino, redenção do mal, purificação espiritual e união com Deus"[1] Não é a mesma situação de hoje? O mesmo historiador eclesiástico narra como as pessoas estavam cansadas dos cultos tradicionais e que queriam algo mais vivo, espontâneo e que as unissem a Deus. Não é o que acontece com as pessoas hoje? E não é isso o que o Evangelho oferece, comunhão viva com Deus? Vemos que o Evangelho tem a resposta para os anseios legítimos mencionados acima e que são os mesmos da sociedade de hoje. Como cristãos devemos conhecer profundamente o que cremos, não só para nós, mas para também darmos uma resposta e testemunho adequado, mostrando a sociedade que aquilo que ela procura em tantos caminhos, ela encontra única e verdadeiramente em Jesus Cristo.

Podemos dizer, a grosso modo, que a tolerância religiosa é uma faca de dois gumes, pois permite que eu propague a minha fé, e permite o mesmo a pessoas que tem uma fé contrária a minha. Oramos por liberdade religiosa em muitos países, e quando há essa liberdade, nos alegramos, pois podemos pregar o Evangelho. Porém, esquecemos que a abertura é também para outras religiões que vão competir com o Evangelho na conquista das almas. Assim o desafio continua. Porém pior do que isso é a intolerância religiosa, a qual cerceia a liberdade, e é a causa de tantos crimes cometidos em nome de Deus. Cristo diz que não podemos tolerar o pecado (Apocalipse 2.20) e ele mesmo deixou princípios para a Igreja dar um tratamento diferenciado para seus membros que não se moldam ao ensino do Evangelho (Mateus 18.15-17). Porém, Jesus nos ensina amar o próximo independente de seu credo religioso (veja-se a parábola do bom samaritano, Lucas 10.25-37) e que devemos dar uma resposta com mansidão para aqueles que perguntam a respeito da nossa fé (1Pedro 3.15).

A reportagem também me fez pensar no porquê as pessoas buscam comunhão com Deus, paz, amor, fraternidade em tantos caminhos e não na Igreja. Vejamos alguns pontos:

Comunidades Alternativas: essas comunidades protestam contra um mundo confuso, materialista e repleto de pseudo-necessidades inventadas pelo Marketing . Essas pessoas buscam uma vida mais simples, mais tranqüila, mais em contato com a natureza. Infelizmente, muitos evangélicos, vivem presos ao mesmo esquema mecânico do mundo: trabalhar-comer-dormir-trabalhar; a teologia da (falsa) prosperidade tem alcançado fileiras nas denominações evangélicas e resumem o Evangelho a ter, e não a ser; a ter o melhor carro, a melhor casa, a melhor roupa; é lógico que todos queremos o melhor de Deus e desta vida, e a Bíblia diz que Deus se compraz na prosperidade dos seus (Salmo 35.27), mas se o Evangelho consiste apenas em ter coisas caras, não há diferença entre um cristão próspero e um ímpio próspero. Essas comunidades alternativas desafiam a Igreja a dar uma resposta. Essas sociedades enfatizam a necessidade de aceitação e de vida em comunidade. E a Igreja tem isso para oferecer? Tem, mas infelizmente, muitas pessoas são "enxotadas" das igrejas por causa de fofocas, invejas, contendas, etc. A Igreja, como instituição, parece estar sendo desacreditada. E nós temos a responsabilidade de resgatarmos a os ensinos de Jesus sobre a vida em comunhão com os nossos irmãos. Devemos fazer com que aqueles que ainda não se converteram se sintam no mínimo bem-vindos em nosso meio. Que nós como Igreja sejamos a comunidade alternativa para esse mundo doido.

Purificação: todas as seitas e religiões reconhecem que o homem não é perfeito e que precisa se aperfeiçoar, se limpar, se purificar. Todas elas têm seus dogmas e rituais próprios para isso. As pessoas estão procurando algo que as limpe, mas elas não têm noção do que realmente as suja; não sabem do que devem ser limpas e usam expressões vagas e ambíguas como "carga negativa", "baixo astral", "maus fluidos", etc. O Evangelho tem a reposta para estas questões no precioso sangue de Cristo, na santidade de vida transformado pelo Espírito. Porém, muitas vezes transformamos a purificação em legalismo ou descambam para a filosofia do "não-tem-nada-a-ver". É estranho que muitos cristãos querem ser puros, não por que isso agrada a Deus, mas por que não querem dar porta de legalidade ao Diabo ou entendem que isso é uma condição para serem prósperos financeiramente. É evidente que quando somos puros fechamos as brechas contra os ardis do Inimigo e alcançamos prosperidade financeira, mas isto deve ser conseqüência de nossa pureza e não a causa dela.

Creio no poder do Evangelho, e que o único caminho que leva a Deus é Jesus; creio que a Igreja, em suas variegadas expressões denominacionais, é o canal competente para manifestar a verdade do Evangelho e não comunidades alternativas, credos esotéricos, os quais despersonalizam Deus e o transformam em uma energia cósmica controladas por rezas e ritos. Muitas dessas "alternativas" são na realidade opções de rebeldia que dizem "não queremos o Deus da Bíblia!", pois "o Deus da Bíblia" os confronta com os seus pecados e dizem que eles não são tão puros e espirituais o quanto imaginam. Notável e triste é o caso do "pastor" homossexual que ao ser confrontado pelo repórter sobre sua posição contraditória de pastor e gay (visto que a Bíblia condena o homossexualismo, Romanos 1.22-28; 1Coríntios 6.9,10) respondeu: "Há que se rever a Bíblia". Ou seja, a Bíblia precisa ser revista, a vida dele não...

Haveria muitos pontos a serem comentados, mas o essencial é que precisamos, como Igreja, tomar uma atitude séria em relação a estes desafios. Estas atitudes devem ser práticas, como orar, se santificar, respeitar o próximo (e não só o crente), estudarmos as doutrinas da Bíblia e nos envolvermos socialmente com as demandas da sociedade.

Graça e Paz.


Joalsemar Araújo


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Notas:
[1] Kelly, J.N.D., Doutrinas Centrais da Fé Cristã - sua origem e desenvolvimento, Edições Vida Nova, 1993, p. 9.