ERA OU NÃO ERA: O QUE A BÍBLIA
DIZ SOBRE MARIA DE MADALENA
Maria Madalena é uma das personagens bíblicas
mais conhecidas. É a mulher mais citada no Novo Testamento
(doze vezes); mas o que a faz famosa é a crença
de que ela teria sido uma prostituta que foi transformada pela
palavra de Cristo: a famosa Madalena Arrependida, exemplo de arrependimento
e transformação para os pecadores.
As fontes que temos sobre a vida de Maria Madalena
são os Evangelhos canônicos (reconhecidos como inspirados
por Deus) e os Evangelhos apócrifos[1]. Estes últimos
não são confiáveis como fonte de informação
verídica sobre Madalena, pois foram escritos bem depois
da época em que ela viveu, além de serem produto
das seitas heréticas gnósticas [2], as quais distorciam
os ensinos de Jesus.
O curioso é que em nenhum lugar
da Bíblia (e até mesmo nos evangelhos apócrifos)
se diz que Maria Madalena fosse prostituta ou a mulher apanhada
em adultério do oitavo capítulo de João.
O livro de Dan Brown, O Código Da Vinci,
polemizou mais o assunto, pois o autor, baseado no evangelho apócrifo
de Filipe, afirma como verdade histórica que Jesus se casou
com Madalena e teve filhos com ela. Tal fantasia se mostra mentirosa
por si mesma.
No entanto como até no meio evangélico
é corrente pensar em Maria como ex-prostituta, faz-se necessário
sabermos o que realmente a Bíblia nos diz sobre essa discípula
de Cristo.
Maria de Magdala
Maria Madalena é assim chamada por ser de Magdala, aldeia
de pescadores que ficava na costa oeste do mar da Galiléia,
próxima a cidade de Tiberíades.O Novo Testamento
nos relata que Cristo expulsou dela sete demônios (Marcos
16.9; Lucas 8.2) e depois ela se tornou uma das mulheres que acompanharam
e seguiram a Jesus (Lucas 8.2-3). Junto com outras mulheres, permaneceu
aos pés da cruz (Marcos 15.40; Mateus 27.56; Lucas 23.49;
João 19.25) e assistiu ao sepultamento do Mestre (Mateus
27.59-69; Marcos 15.46-47; Lucas 23.55,56). Deixando passar o
sábado, que era dia de descanso, Maria vai, na madrugada
de domingo, aplicar especiarias no corpo de Jesus, conforme o
costume, e se torna a primeira testemunha da ressurreição
de Cristo (Mateus 28.1-8; Marcos 15.1-19; Lucas 24.1-10; João
20.1-18).
Lendas
Fora o que foi dito acima, nada pode ser afirmado com certeza
a respeito de Maria Madalena. Porém, muitas lendas surgiram
em torno dela. De acordo com uma antiga tradição
dos antigos cristãos do Oriente, Maria Madalena acompanhou
João e Maria, mãe de Jesus, a Éfeso, onde
morreu e foi enterrada. Um das lendas da Idade Media diz que ela
foi prometida ao apóstolo João.
Uma outra lenda antiga, que a confunde com Maria,
irmã de Lázaro, diz que ela viajou para Marselha
na Gália (França) com Marta e Lázaro e outros
para evangelizar a região. Segundo essa lenda, ela passou
30 anos de sua vida cumprindo penitência na caverna de La
Saint-Baume nos Alpes Marítimos e foi milagrosamente transportada
pouco antes de sua morte, para a capela de Saint-Maximin e enterrada
em Aix.
Ao longo dos séculos a arte cristã tem representado
Maria Madalena, através da escultura e da pintura, como
uma mulher de cabelos longos e com uma jarra de óleo nas
mãos.
Maria Madalena apócrifa
Os escritos apócrifos (Evangelho de Maria, Proto-Evangelho
de Tiago, Evangelho de Filipe e Pistis Sophia) consideram Maria
Madalena como o espírito da Sabedoria descrita em Provérbios
oito; a personificação da gnosis (conhecimento);
amada de Jesus; adversária de Pedro; ministra da evangelização;
discípula e apóstola de Jesus; a apóstola
dos apóstolos. Nesses textos não se afirma que Maria
teria sido prostituta ou uma mulher adúltera. De onde vem
então essa associação?Por que se pensa que
Madalena era prostituta?
Do que vimos acima, percebe-se que a Bíblia nada diz sobre
a vida de Maria Madalena antes de sua conversão, a não
ser o fato de que foi liberta por Cristo de sete demônios.
Realmente uma situação terrível, porém
isso não quer dizer que Madalena tivesse uma vida devassa.
De onde vem então a crença de Maria Madalena era
prostituta? Vem da confusão de Maria Madalena com a pecadora
[3] mencionada no capítulo sete de Lucas que ungiu os pés
de Cristo e da confusão desta com Maria, irmã de
Lázaro que também ungiu Jesus. Posteriormente associou-se
Madalena à história da mulher adúltera do
evangelho de João. Ou seja: a pecadora de Lucas 7=Maria
de João 12=Maria Madalena=mulher adúltera. Por ser
pecadora, a mulher de Lucas 7 foi identificada com Madalena, que
foi possuída por muitos demônios, e a associação
de Maria de Betânia com a pecadora de Lucas 7 se deve ao
fato de ambas ungirem os pés de Jesus. Porém deve
se observar que a pecadora lavou os pés de Jesus com as
próprias lágrimas enquanto que Maria de Betânia
com o perfume.
Nas passagens paralelas com a unção de Betânia
em Mateus 26.6-13 e Marcos 14.3-9 se menciona a unção
da cabeça de Jesus. Porém é o mesmo episódio:
no costume da hospitalidade oriental se ungia a cabeça
e se lavava e ungia os pés. João frisou a unção
dos pés, enquanto Mateus e Marcos a da cabeça.
A unção da pecadora de Lucas e a de Maria de Betânia
têm de semelhante o nome do dono da casa e a forma em que
é realizada a unção, mas uma série
de fatos mostra que são episódios diferentes:
Simões diferentes. O Simão de Lucas é
chamado fariseu; o de Betânia, leproso. Simão era
um nome comum na época e se usavam qualificativos para
se distinguir as pessoas. Como o qualificativo é diferente,
os Simões são diferentes.
Lugares diferentes. A unção da pecadora
se dá numa cidade (Lucas 7.37) que provavelmente é
Naim, mencionada anteriormente (Lucas 7.11). A unção
de Maria se dá na aldeia de Betânia (João
12.1).
Épocas diferentes. A unção de Betânia
se dá no final do ministério de Jesus, próxima
da sua derradeira Páscoa, e de seu sepultamento (Mateus
26.2,12; Marcos 14.1,8; João 12.1,7). Já a unção
da cidade se dá quando Jesus ainda estava em um ministério
itinerante como se depreende de Lucas 8.1, que a o contexto subseqüente
do episódio da pecadora.
Portanto, são episódios e pessoas diferentes. Mas
seria Madalena a pecadora de Lucas 7? Pouco provável, pois
nenhum texto do Novo Testamento faz essa identificação,
a qual depende da confusão com Maria de Betânia e
não é, portanto, uma tradição independente,
mas fruto de um mal entendido, que por ser antigo se tornou tradicional
e popular.
Seria Madalena a mulher adúltera de João 8? Provavelmente
não, pois mulheres livres não adulteram, nem as
solteiras, mas, somente as noivas e as casadas. Que Madalena não
era casada se evidencia por sua liberdade de seguir a Cristo,
o que seria improvável se fosse casada e por não
ser mencionado o nome de seu marido, o que na sociedade da época
era comum. Quando se quer distingui-la de outras Marias, se usa
o gentílico madalena. O normal seria mencionar o nome de
seu esposo se fosse casada.
Além disso, o texto de João 7.53-8.11 que narra
a história da mulher adúltera, embora seja histórico
(realmente aconteceu) e canônico (faz parte da Palavra de
Deus escrita) não consta nos mais antigos manuscritos do
Novo Testamento, aparecendo em alguns manuscritos antigos no texto
de Lucas. É uma história real da vida de Cristo
que se propagou independente dos evangelhos e se fixou no texto
de João; essa passagem, porém foi pouco conhecida
e comentada pelos primeiros cristãos, sendo usada no culto
a partir o século V d.C. e praticamente só comentada
no século XII. A identificação da mulher
adúltera com Madalena veio depois dessa já estar
identificada como uma mulher pecadora, e no decorrer dos anos
todas essas mulheres se confundiram. Mas como foi isso?
Maria de Magdala: de apóstola
dos apóstolos para pecadora e adúltera
A primitiva comunidade cristã tinha grande estima por Maria
Madalena, mais pelo seu papel na ressurreição do
que pela redenção de sua vida pregressa. Por ter
sido comissionada por Cristo a anunciar Sua ressurreição
aos demais discípulos, Madalena passou a ser estimada como
modelo evangelização, a apóstola dos apóstolos.
No segundo século depois de Cristo, o teólogo Tertuliano
de Cartago (150-222), em seu tratado De Pudicitia, confunde
e identifica Maria Madalena, Maria de Betânia e a pecadora
de Lucas 7 como uma mesma pessoa. No entanto, pela mesma época,
outro grande teólogo, Irineu de Lion (c. 130-202 d.C.)
distingue em seus escritos as três pessoas. Orígenes
de Alexandria (185-254 d.C.) discutiu a possibilidade das três
personagens serem a mesma mulher, mas rejeitou essa identificação.
Hipólito de Roma (170-235 d.C.), escrevendo sobre o Cântico
dos Cânticos, ressalta o amor espiritual de Madalena por
Cristo e compara a busca da Amada pelo Amado no poema de Salomão
com a busca de Madalena por Jesus no sepulcro e no jardim. Ele
a intitula de "Apóstola dos Apóstolos".
Jerônimo (342-420 d.C.), em sua obra Principium Virginem,
ressalta seu privilégio de ver Cristo ressuscitado mesmo
antes dos apóstolos por causa da força da sua fé.
Pedro Crisólogo (380-450) a vê como figura da Igreja.
Apesar dessa exaltação de Madalena, a tradição
da prostituta redimida oriunda da confusão das três
mulheres ia crescendo e ganhando vulto. Em contra partida, as
seitas heréticas gnósticas exaltavam Madalena como
a companheira predileta de Cristo e personificação
da Sabedoria divina.
Como passar do tempo, a virgindade passou a ser valorizada como
modelo de espiritualidade, encontrando seu grande referencial
em Maria, mãe de Jesus; Maria Madalena passa gradativamente
a ser o referencial da pecadora redimida. Agostinho de Hipona
(354-430 d.C.) foi um dos poucos teólogos ocidentais que
distinguiam as três mulheres e ressaltavam o papel de Madalena
na ressurreição de Cristo. Os teólogos ligados
à tradição cristã do Oriente continuaram
exaltando Madalena por seu papel na ressurreição.
Cirilo de Alexandria (370-444 d.C.) e Proclus de Constantinopla
(390-446 d.C.) afirmam que a aparição de Cristo
ressuscitado às mulheres, em especial, a Madalena, visava
honrá-las. Gregório de Antioquia, em c. de 593,
chama Madalena e as mulheres que foram ao sepulcro de"primeiras
apóstolas".
No entanto, na parte ocidental da Igreja, que estava sob a influência
do bispo de Roma, prevalecia a ênfase no mito da prostituta
perdoada. O Papa Gregório I (540-604 d.C.) em uma pregação
ao povo de Roma, que passava por enormes dificuldades (fome, guerra
e peste), utilizou o exemplo de Maria Madalena como a prostituta
que se arrependeu, e só por isso foi curada, passando o
resto da vida em penitência. Esse exemplo foi utilizado
para demonstrar que o povo necessitava de fé e penitência.
Com isso, Gregório I oficializou e deu por certo o antigo
erro de identificar Maria Madalena, Maria de Betânia e a
pecadora de Lucas como uma mesma mulher.
No entanto, na Igreja Oriental continuava a se pensar diferente
como testemunha Modestus, patriarca de Jerusalém, em 630,
que acreditava, contrariando a crença tradicional sobre
Madalena, que ela havia morrido virgem e mártir,
e que fora líder das discípulas.
Mas no ramo ocidental da Igreja perpetuou-se a crença de
que Maria de Magdala era a pecadora que ungiu os pés de
Jesus e ao mesmo tempo seria Maria de Betânia e a mulher
adúltera. A partir do século X, inúmeras
"Vidas" de Maria Madalena foram escritas. Maria Madalena
foi proclamada, em 1050, padroeira de uma abadia de monjas beneditinas.
Isso visava mostrar que Maria Madalena se arrependeu e tornou-se
eremita, incentivando a entrada de mulheres para as ordens religiosas.
Mas como Maria poderia ser denominada através de duas cidades
diferentes? Ela era de Magdala ou de Betânia? A imaginação
humana sempre encontra saídas mirabolantes para as dificuldades
que se lhe apresentam. E no caso de Madalena, em vez de se estudar
a Bíblia e rejeitar uma crença errada, criou-se
outra fantasia: No século XII, Iacopo de Varazze, em sua
Legenda Áurea (a biografia dos Santos) diz que ela era
oriunda de uma família rica de Betânia, que morava
em um castelo chamado Magdala. Com a morte dos pais, Marta teria
herdado a vila de Betânia e ela o castelo, daí o
seu nome. Honório de Autun, pensador da mesma época,
em seu Speculum Ecclesiae (tratado sobre pecado, perdão
e penitência) atribui a Maria Madalena o adultério
e uma vida promíscua e por isso cheia de demônios,
tendo sido salva pela clemência de Cristo.
Nada disso se encontra na Bíblia, nem na História.
Porém, quando algo é crido por muitos séculos
é difícil e polêmico de ser contestado e revisto.
Embora o Catolicismo mais erudito não creia que Madalena
fosse prostituta e adúltera, o Catolicismo popular o crê
firmemente.
E os evangélicos? Geralmente crêem, por tradição
e por ignorância das Escrituras. Por que duvidar do que
todo mundo diz sobre Madalena? Só que nem todo mundo estuda
a Bíblia. Quando me converti achava que na Bíblia
estavam escritas as seguintes frases: “De 1000 passarás,
mas de 2000 não passarás”, “Os justos
pagarão pelos pecadores”e “aqui se
faz, aqui se paga”. Para minha surpresa, quando li
a Bíblia vi que nada disso estava escrito. Também
acreditava que Madalena era a mulher adúltera, e mesmo
lendo e estudando a Bíblia, só depois de anos é
que constatei que cria em algo errado ou no mínimo, improvável.
Conclusão
O intuito desse texto é esclarecer a confusão sobre
a identidade de Madalena. A crença tradicional sobre ela
não se baseia na Bíblia ou em dados históricos,
mas sim, na confusão causada pela interpretação
e ignorância de teólogos antigos e perpetuada pela
crença popular. Não creio que a crença tradicional
sobre Madalena seja uma heresia, mas se queremos ser fiéis
a Bíblia, devemos rejeitá-la. Não ficaremos
sem exemplo do poder transformador do Evangelho: a Bíblia
e a vida têm muitos exemplos, inclusive ela Madalena.
Graça e paz.
Joalsemar Araújo.
NOTAS
[1]. Apócrifo deriva do grego apókryphos
e significa oculto, escondido. Os livros chamados apócrifos
são, em geral, textos falsos no conteúdo ou no título
e que por isso não entraram na lista (cânon) dos
livros inspirados, isto é, na Bíblia. Existem 60
apócrifos relacionados ao Novo Testamento e 52 ao Antigo
Testamento. Os Evangelhos apócrifos são frutos de
lendas dos antigos cristãos e também de seitas heréticas,
como os grupos gnósticos. Nesses livros aparecem entre
outras coisas: os nomes dos avós de Jesus, Joaquim e Ana;
a vida de Maria e sua assunção aos Céus;
a história de Verônica; a história de José;
a defesa da virgindade perpétua de Maria; as travessuras
de Jesus menino; a idéia que o pecado não existe;
o amor preferencial de Jesus por Maria Madalena; que Maria Madalena
não era prostituta, a história da filha de Pedro;
as divergências entre as lideranças das primeiras
comunidades cristãs, etc.
[2]. O Gnosticismo foi um movimento herético dos primeiros
tempos o Cristianismo que propunha que a Salvação
só se daria por meio de um conhecimento (gnosis em grego)
secreto. Os grupos que compunham esse movimento faziam um sincretismo
de várias filosofias religiosas. Os grupos que procuraram
associar Jesus às suas crenças criam, dentre outras
coisas, que a matéria é intrinsecamente má,
por isso sendo Jesus um espírito puro não poderia
se fazer matéria; não tinha forma nem corpo definido;
era um ser espiritual que se adaptou à percepção
humana. Não aceitavam a dupla natureza de Cristo, isto
é, que ele fosse Deus e Homem ao mesmo tempo, negando assim
a encarnação que é uma das bases da fé
cristã (1João 4.1-6). Como aquilo que criam e ensinavam
não estava de acordo com o ensino de Jesus preservado na
Igreja, os gnósticos “cristãos” procuravam
ligar suas crenças aos ensinos de Jesus dizendo que haviam
recebido um ensino secreto transmitido por Cristo só a
algum ou alguns discípulos e que só os gnósticos
tinham acesso a esse ensino secreto. Por isso os gnósticos
produziram “evangelhos” e outros escritos utilizando
o nome de algum apóstolo par que suas crenças passassem
por verdadeiras. A idéia de um evangelho secreto ligado
a um apóstolo se choca com as palavras de Cristo que manda
tornar públicos os seus ensinos (Mateus 10.26,27).
[3]. No contexto da cultura judaica do século I esse adjetivo
aplicado a uma mulher tinha uma conotação de imoralidade
sexual.