"Bate o sino/pequenino/sino
de Belém"
A matéria afirma que Jesus não nasceu em Belém,
e sim em Nazaré. A evidência disto estaria no fato
de o evangelista Lucas colocar o recenseamento feito por Quirino,
o qual levou a família de Jesus para Belém, fora
da época em que teria ocorrido. A história do nascimento
em Belém seria uma falsidade cristã para identificar
Jesus com o Messias judaico (p. 47). Mediante estas afirmações,
nos perguntamos: que provas o autor tem que Jesus nasceu em Nazaré,
e não em Belém? Como ele não pode provar
isto, concluímos que esta afirmação procede
mais de preconceitos contra a fé cristã do que de
evidências históricas.
Procurando provar que Jesus não nasceu em Belém,
a revista afirma como evidência que "os registros romanos
mostram que Quirino(aquele que teria feito o senso que obrigou
a viagem a Belém) só assumiu no ano 6 d.C. - 12
anos depois do ano de nascimento de Cristo" (p.47). Mais
uma vez, o autor da matéria mostra que não sabe
do que está falando. Existe farta documentação
tirada de Tito Lívio, Suetônio, Estrabão (autores
romanos), Flávio Josefo e de inscrições antigas
que permite reconhecer a fidelidade histórica do evangelho
de Lucas: Quirino, que foi governador romano da Síria entre
6 e 12 d.C., deve ter sido (como se conclui de testemunhos documentais
antigos) administrador da política romana no Oriente Próximo
desde 12 a.C.. Visto que o imperador Augusto promoveu três
vezes o recenseamento do Império entre 28 a.C. e 14 d.C.,
Quirino pode ter executado um desses recenseamentos nas regiões
sob seu mandato. Portanto, existem evidências de que Jesus
nasceu na época em que Quirino estava no Oriente. Além
disso, No texto de Lucas 2.1-5, a palavra primeiro (no original
grego prótos) também tem o sentido de anterior.
Deste modo leríamos: "Este recenseamento ocorreu antes
daquele que foi feito sob Quirino, Prefeito da Síria"[6].
Portanto, não haveria necessidade de afirmar que Jesus
nasceu sob Quirino. Vemos assim que o "problema" apresentado
pela matéria pode ser resolvido com, ao menos, duas explicações.
Quanto a habilidade do evangelista Lucas como historiador, esta
tem sido demonstrada quando se compara o contexto histórico
dos livros que escreveu (o evangelho e o livro de Atos) com o
que se sabe pela História sobre o mundo greco-romano de
então. O arqueólogo William Ramsay começou
a investigar a historicidade do livro de Atos dos Apóstolos
a princípio descrente que poderia encontrar alguma confirmação
histórica desse livro. Porém, à medida que
pesquisava foi ficando cada vez mais convicto da fidedignidade
histórica de Lucas como historiador. Ramsay e outros estudiosos
têm demonstrado a exatidão do conhecimento de Lucas
do governo provincial romano, das fronteiras geográficas
do século I, de costumes sociais e religiosos, procedimentos
de navegação e outros dados do gênero[7].
Já a habilidade de Vinícius Romanini como historiador
tem se mostrado medíocre. Quando fala do rei da Judéia
sob o qual nasceu Jesus, e que também embelezara arquitetonicamente
a cidade de Jerusalém, ele o chama de Herodes Antibas (pp.
47-50). Nisto comete dois erros crassos: primeiro, não
é Antibas, e sim, Antipas; segundo, o rei judeu sob o qual
Jesus nasceu e que fez obras em Jerusalém não foi
Herodes Antipas (que nem era rei, era tetrarca, administrava ¼
da Palestina), e sim, seu pai, Herodes, o Grande, que reinou na
Judéia entre 37 e 4 a.C. Assim sendo, Vinícius Romanini
erra o nome e erra o rei; e isto, contanto com amplos recursos
de livros e outras fontes de informação. Aí,
nos perguntamos: podemos confiar nesta matéria de Superinteressante,
já que seu autor o tempo todo se mostra preconceituoso
e ignorante dos fatos sobre
os quais descreve?
Virgem ou Sem-Vergonha?
Ao tratar do fato miraculoso de que Maria teria concebido Jesus
estando virgem, a matéria menciona uma antiga versão
de antigos contestadores da mensagem cristã: Maria, uma
adolescente de doze anos, teria engravidado de um soldado romano.
Segundo a lei judaica Maria seria passível de morte; José,
um velho carpinteiro, teria se casado com ela para poupá-la
e encobriu a gravidez de Maria assumindo a paternidade de Jesus
(p. 47). A matéria não afirma e nem nega esta versão,
mas como o conteúdo da revista é tendencioso, é
bom comentarmos sobre isto.
A matéria menciona que os livros apócrifos cristãos
dos séculos II e III seriam fonte dessa versão.
Mais uma vez o autor da matéria demonstra conhecer superficialmente
o assunto.
Os livros apócrifos de índole cristã revestem-se
de pouco valor histórico, sendo mais estórias inventadas
para propagar heresias e satisfazer curiosidades sobre períodos
da vida de Jesus e dos apóstolos não relatados no
Novo Testamento. Porém, esta versão sobre o nascimento
de Jesus não procede dos livros apócrifos, e sim,
da tradição judaica antiga, expressa no Talmude
(coleção de ensinos dos rabinos judeus antigos).
No Talmude judaico do século I d.C. Jesus é referido
como Ben Panthera, isto é, filho de Panthera. No século
II, o filósofo grego Celso, adversário da fé
cristã, afirmou que Panthera seria o nome de um soldado
romano com o qual Maria teria tido relações sexuais
e concebido Jesus. Apesar de essa versão ser imaginosa
e sem fundamento, ela indica que, desde muito tempo, o nascimento
de Jesus foi tido como algo que foge dos padrões normais,
pois precisa ser explicado ou contestado.
Se não é doze, é dose!
A matéria afirma que dos doze discípulos de Jesus,
apenas oito são confirmados, e que ele teria mais de doze
discípulos, e que o número doze seria uma invenção
posterior para "espelhar, no Novo Testamento, as 12 tribos
dos hebreus descritas no Velho Testamento" (p. 48). Em nenhum
evangelho afirma-se que Jesus só tinha doze discípulos.
A palavra discípulo era usada de maneira geral para se
referir àqueles aderiram a Jesus (Mateus 10.42; Lucas 6.17;
João 6.66) e de um modo mais específico aos Doze
que abandonaram tudo para segui-lo (Mateus 10.1; 11.1; Marcos
10.28), chamados também de apóstolos. A variação
na ordem e nos nomes não invalida a identificação
deles. Alguns eram conhecidos por mais de um nome, e.g., Mateus
é também se chamava Levi, Mateus 9.9 = Marcos 2.13;
Lucas 5.28. Embora o número de doze discípulos não
seja uma invenção posterior, é lógico
que ele não foi escolhido por Jesus por acaso; com certeza
este número é representativo da formação
de um novo conceito de Povo de Deus, assim como era as doze tribos
de Israel.
Tiradentes Judeu?
A matéria mostra sua incompreensão da pessoa de
Jesus Cristo ao afirmar que ao entrar em Jerusalém montado
em um jumento (cumprindo assim a profecia de Zacarias 9.9), Jesus
queria provocar aos sacerdotes e a elite judaica (p.48). Evidentemente
que Jesus não concordava com a corrupção
político-religiosa da elite judaica de então e nem
com a opressão romana, mas o maior motivo do agir de Jesus
não era sua revolta contra o sistema, e sim, cumprir o
que estava escrito a seu respeito (Mateus 21.4,5), ou seja, cumprir
a vontade de Deus. A matéria só consegue enxergar
Jesus como um judeu religioso revoltado contra o sistema, e que
foi até às últimas conseqüências
para manifestar a sua indignação. Na concepção
da matéria, Jesus seria apenas um Tiradentes judeu.
A matéria menciona que "existem provas da denúncia
de Caifás a Pilatos. Estudiosos judeus afirmam, porém,
que o julgamento perante o Sinédrio jamais ocorreu porque
o Sinédrio não se reunia durante a Páscoa.
Essa versão teria sido incluída tardiamente na Bíblia
após a ruptura definitiva entre cristãos e judeus.
Jesus foi morto pelos romanos porque era considerado um agitador
político"(p.48). Ou seja, Jesus foi, na realidade,
morto pelos romanos; os cristãos, depois que romperam com
os judeus, é que inventaram o julgamento do Sinédrio.
Estas afirmativas ignoram que:
>> Embora o Sinédrio não costumasse se reunir
na Páscoa, isto não impede que, em virtude de um
caso excepcional, ele não poderia se reunir nesta época.
O Sinédrio tinha urgência em prender e condenar Jesus
(Mateus 26.3-5).
Os Evangelhos falam que Jesus foi julgado pelo Sinédrio
durante a noite, coisa que o Sinédrio também não
fazia. Isto mostra a urgência que eles tinham em condenar
Jesus, se possível, antes da Páscoa;
>> "Esta versão", como diz a matéria,
não pode ter sido incluída tardiamente na Bíblia,
pois ela é tão antiga quanto os Evangelhos, os quais
foram escritos quando ainda havia testemunhas oculares dos fatos
narrados. Não existem nos manuscritos originais evidências
da inclusão desta "versão". A Bíblia,
ao contrário do que muita gente pensa, não ficou
à mercê de nenhuma igreja que incluía o que
lhe agradava, e excluía o que lhe desagradava; até
porque, a igreja não contava com unidade e influência
suficientes para conseguir uma intervenção tão
uniforme no texto bíblico. Prova disto são os milhares
de manuscritos antigos existentes da Bíblia produzidos
por vários grupos diferentes, em vários lugares
e em épocas diferentes, e que variam no conteúdo
dos livros bíblicos. Se tivesse uma igreja controlando
tudo não haveria esta variação;
>> Jesus só foi morto pelos romanos por que o clero
judaico o quis (Mateus 27.1,2).
A opinião de Roma, expressa pela pessoa do governador Pôncio
Pilatos, a respeito de Jesus é a seguinte: "Então,
reunindo Pilatos os principais sacerdotes, as autoridades e o
povo, disse-lhes: Apresentastes-me este homem como agitador do
povo; mas, tendo-o interrogado na vossa presença, nada
verifiquei contra ele do crime de que o acusais. Nem tampouco
Herodes, pois no-lo tornou a enviar. É, pois, claro que
nada contra ele se verificou digno de morte. Portanto, após
castigá-lo, soltá-lo-ei", Lucas 23. 13-16.
Os judeus de então, instigados pelo clero, é que
forçaram a Pilatos a crucificar Jesus. Portanto, o governo
romano serviu apenas como "braço", enquanto o
Sinédrio foi a "mente" que executou Jesus.
Ufa! Pelo menos Uma!!!
Não podemos deixar de mencionar que a matéria de
Vinícius Romanini, apesar de ser mais tendenciosa do que
científica, ilustra bem, nas páginas 48 a 50, o
cenário em que se deu a vida terrena de Jesus, permitindo-nos
conhecer um pouco mais sobre a vida do Mestre.
Paulo e Tiago Brigando?
Quando escreve sobre Paulo (p. 50) a matéria dá
um quadro geral compatível com o que se acha na Bíblia.
Porém, para não perder o costume, não deixa
de cometer alguns equívocos:
>> A matéria dá a entender que Tiago e Paulo
tinham um desacordo. O Novo Testamento realmente mostra que eles
tinham ênfases diferentes: Paulo focalizava os gentios,
e Tiago, os judeus. Porém, Paulo não obrigava nenhum
judeu cristão a abandonar a tradição judaica,
e nem Tiago obrigava aos gentios a guardarem essa tradição.
Para resolver a questão de relacionamento entre judeus
e gentios dentro da Igreja, foi convocado um concílio em
Jerusalém onde alta liderança da Igreja estava presente.
Tiago, que presidiu o concílio, deu um parecer favorável
aos gentios de não se submeterem à lei judaica,
embora ele e outros cristãos nascidos no Judaísmo
quisessem fazê-lo (Atos 15.1-21; 21.17-26);
>> Pelo que foi exposto acima, o ponto de vista de Paulo
não prevaleceu porque Pedro concordou com ele, e sim, porque
a Igreja reunida em um concílio compreendeu que o propósito
de Deus não visava apenas um único povo e sua cultura
religiosa.
A Quem Interessar Possa...
Tendo comparado o texto de Vinícius Romanini com a
Bíblia, a História e a Arqueologia, só podemos
concluir aplicando as mesmas expressões aplicadas à
Bíblia pela revista à própria revista:
"SUPERINTERESSANTE. O QUE É VERDADE E O QUE É
LENDA. A Arqueologia investiga as provas históricas dos
relatos da matéria A Bíblia Passada a Limpo. E,
baseada em descobertas recentes, afirma:
- Os Patriarcas Abraão e Moisés existiram;
- O Êxodo aconteceu;
- Os reis Davi e Salomão não eram apenas reis tribais.
DESCOBERTAS RECENTES DA ARQUEOLOGIA INDICAM QUE A MAIOR PARTE
DA MATÉRIA "A BÍBLIA PASSADA A LIMPO"
NÃO PASSA DE LENDA.
Queridos amigos internautas, o intuito com o qual eu escrevi estas
linhas foi motivado pelo texto de I Timóteo 3.15, onde
se afirma que a Igreja do Deus vivo é coluna e baluarte
da verdade. Não podia ler a matéria referida acima
e simplesmente discordar; me senti impelido a fazer algo mais
do que isto. A revista Superinteressante é uma das melhores
revistas que tratam de assuntos científicos, pois em vez
de usar a linguagem acadêmica, usa uma linguagem mais acessível
ao público em geral. Além disso, seus artigos são
realmente superinteressantes. Porém, no tocante à
matéria discutida acima, ficou evidente que houve uma atitude
preconceituosa, pois não se verificou todos os lados da
questão. Ninguém é obrigado a acreditar na
Bíblia como a Palavra de Deus. Ninguém é
obrigado a crer em tudo que ela narra. Mas, se alguém quer
contestá-la, faça de maneira sóbria e sensata,
vendo todos os lados da questão, coisa que o articulista
Vinícius Romanini não fez. Na realidade a matéria
é tendenciosa; foi publicada quando o assunto da moda era
religião: crescimento dos evangélicos, existência
de Deus, escândalo envolvendo a Igreja Renascer... Assuntos
que, de uma maneira ou de outra, nos remetem à Bíblia.
Portanto, uma tradicional jogada de marketing, que em si não
é prejudicial, mas que deve ser feita com mais equilíbrio.
Você, meu amado irmão, não se sinta constrangido
em desacreditar da Bíblia. Independente do que a Ciência
afirme, ela continuará sendo o livro mais vendido, mais
traduzido, mais lido, mais comentado, mais estudado, mais contestado,
mais influente... Seu sucesso não se deve à editora.
Seu sucesso se deve ao Autor. Embora escrita por homens e usando
a linguagem humana, ela é, e sempre será, a imutável
Palavra de Deus.
Querido internauta, independente do seu credo, saiba que o Deus
da Bíblia te ama e tem um propósito tremendo para
a sua vida. O que nos liga à Bíblia não é
a Bíblia em si, mas o Deus que se revela nela. O Deus que
criou a mim e a você. Jesus Cristo é a resposta de
Deus para resolver todos problemas do homem, os quais ciência
alguma pode ou poderá resolver. Deus acha você superinteressante;
mais do que passar sua vida a limpo, Ele quer te limpar! Portanto,
entregue sua vida a Ele. Com certeza, sua vida vai ser mais do
que um estudo científico, ela vai ser verdadeiramente vida,
vida com abundância. Graça & Paz!!!
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
[1] Citado na revista Pergunte e Responderemos , no. 462, Edições
Lumen Chisti, 2000 (p.29);
[2] Ibid, p. 30.
[3] Enciclopédia de Dificuldades Bíblicas, Gleason
L. Archer, Editora Vida, 1997 (p. 51);
[4] Conforme citado em Arqueologia do Velho Testamento, Merril
F. Unger, Imprensa Batista Regular, 1985 (p. 74);
[5] Conferir as surpreendentes descobertas relatadas no livro
Testemunha Ocular de Jesus. Novas Provas em Manuscrito sobre a
Origem dos Evangelhos de Carsten Peter Thiede e Matthew D'Ancona,
Imago Editora, 1996;
[6] Conforme demonstrado por D. Estevão Bittencourt no
artigo "O Recenseamento sob César Augusto e Quirino
(Lc 2,1-5)" na revista Pergute e Responderemos no. 370, Edições
Lumen Cristi, 1993
(pp.138-140);
[7] Ver Introdução ao Novo Testamento, D. A. Carson,
Douglas J. Moo e Leon Morris,
Edições Vida Nova, 1997
(pp. 228-238). Aqui se indica uma rica bibliografia sobre o tema;
* As citações bíblicas
mencionadas neste artigo são tiradas tradução
de João Ferreira de Almeida, versão revista e atualizada
em 2a edição pela Sociedade Bíblica do Brasil,
1993.
* Muitas das informações descritas neste artigo
se deve a um material bibliográfico abalizado, em especial
a alguns artigos do monge beneditino D. Estevão Bittencourt
publicados na revista Pergunte e Responderemos.
Joalsemar Araujo