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Diácono, Professor de Escola Biblica Dominical e Bibliologia do Seminário Vida Nova.

 
   

 

Jericó? É por aqui ó'...
Diz a matéria (p.46) que a conquista da cidade de Jericó pelos hebreus não teria ocorrido do modo como está registrado na Bíblia (Josué 6), pois na época da conquista não havia muralhas em Jericó. É preciso primeiramente definir o período ao qual a revista está se referindo. Como vimos acima, não há total acordo entre os arqueólogos sobre a data exata do Êxodo e, portanto, da conquista de Canaã. Existem alguns indícios bíblicos e históricos que parecem apontar o século XIII a.C., e também existem indícios bíblicos e históricos que apontam entre os séculos XV e XIV a.C. O texto bíblico se enquadra mais com estes últimos (c. 1446 -1400 a.C., Êxodo e Peregrinação; c. 1400-1360 a.C., conquista parcial de Canaã realizada sob a liderança de Josué). A Arqueologia tem demonstrado que a cidade de Jericó foi violentamente destruída em torno de 1400 a.C. Esta data se enquadra com a data mais provável para a tomada de Jericó por Josué. As escavações realizadas por John Gargstrang, e posteriores, confirmam que a cidade, por não ser muito grande, levou a alguns moradores a construírem casas entre os muros. E é como diz o texto bíblico: "Ela então os fez descer por uma corda pela janela, porquanto a sua casa estava sobre o muro da cidade, e ela morava sobre o muro", Josué 2.15.

As escavações demonstram que a cidade foi violentamente destruída, sendo novamente reconstruída em torno de 860 a.C., o que condiz com o texto bíblico de 1Reis 16.34.

Desta forma nos perguntamos: por que a matéria afirma que não existiam muralhas na época se elas existiam? É porque a revista leva em consideração o outro período apontado pelos estudiosos como também sendo a provável data do Êxodo e da Conquista: o século XIII a.C. Não foram encontrados vestígios que indiquem que nessa época Jericó existia como cidade. Porém, isto não contradiz o texto bíblico, pois este afirma que a cidade de Jericó foi completamente destruída a fogo (Josué 6.24). Se observarmos atentamente as evidências arqueológicas, perceberemos que Jericó ficou sem ser reconstruída cerca de 400 anos, tempo suficiente para que a erosão desaparecesse com os vestígios de ocupação do século XIII.

Percebemos, portanto, que mesmo que adotemos a data proposta pela revista ela não contradiz cabalmente o texto bíblico. Mas uma vez a Arqueologia, em vez de condenar o texto bíblico como falso, lhe dá credibilidade!

A Conquista de Canaã: na Paz ou na Guerra
Como a revista afirma que o povo de Israel não se originou de Abraão, nem dos eventos relacionados ao Êxodo e a Conquista (pois na sua opinião isto tudo não passa de lenda), precisa dar outra origem ao povo de Israel e a sua chegada em Canaã. Portanto a matéria afirma que os hebreus e os canaanitas eram um mesmo povo, sendo que os canaanitas eram sedentários e habitavam nos vales, enquanto os hebreus eram nômades e habitavam nas montanhas. Quando os canaanitas foram assolados por diversas invasões, os hebreus aproveitaram e penetraram vagarosa e pacificamente na terra de Canaã (p. 46).

A revista, no entanto, parece ignorar que o consenso dos historiadores é que realmente o povo de Israel foi escravo no Egito, e de lá, penetrou em Canaã, pois não há motivos para se duvidar deste fato. A revista acerta quando afirma que os hebreus eram nômades, mas erram quando afirmam que eram o mesmo povo que os canaanitas. A própria palavra hebreu desmente este fato, pois este não é o nome de um povo ou raça específica, mas o nome genérico que os habitantes da antiga Palestina, Síria e Egito (os registros históricos destes povos entre os séculos XIX e XIV a.C. confirmam isto, mencionando-os como habiru ou Apiru) davam a todos os povos nômades (semitas ou não), isto é, povos que migravam de outras terras (o termo hebreu significa " aquele que vem de além"). Portanto, o nome hebreu não designa um povo, mas sim uma condição social. Até o termo canaanita ou cananeu não designa só um povo específico, mas outros povos, inclusive os famosos fenícios. Desta forma canaanitas e hebreus não podem ser o mesmo povo, apesar de terem, comprovadamente, afinidades lingüísticas, culturais e religiosas. Em Gênesis 14.13 Abraão é designado de hebreu (e a partir daí este termo associou-se especialmente aos israelitas e aos judeus), e isto se encaixa com o que sabemos sobre este termo, pois Abraão e seu clã eram nômades. Os israelitas (que descendiam de Abraão por seu neto Israel) eram também hebreus, mas nem todos os hebreus eram israelitas. A revista confunde estes termos.

Quando a revista nega a conquista de Canaã pelos israelitas (que são designados como hebreus) afirma que "a chegada dos hebreus teria sido um longo e pacífico processo de infiltração" (p.46). Esta afirmativa tem um acerto e um erro. Ela acerta quando afirma que a conquista foi um longo processo. O livro de Josué afirma que, embora contando com a ajuda divina, os israelitas não conquistaram completamente Canaã, faltando muitíssima terra para ser conquistada (Josué 13.1-13). Portanto, nisto não há incoerência entre o que diz o texto bíblico e o que afirma a revista; se o autor da matéria tivesse lido o texto bíblico ele teria verificado isto. A conquista da Palestina só se deu depois de mais de 400 anos, no reinados de Davi e Salomão. A revista erra quando afirma que a conquista se deu pacificamente. O texto bíblico relata que Canaã foi sendo conquistada através de guerras, o que é confirmado pela própria Arqueologia através das famosas cartas de Tel el-Amarna. Estas correspondências, entre tantos fatos, descrevem a invasão de Canaã no mesmo período em que Josué conquistava parte de Canaã. Abdi-Hiba, rei de Jerusalém e subordinado ao faraó Amenófis IV, solicita a ajuda egípcia contra um povo que estava invadindo Canaã: "Os Habiru saqueiam todas as terras do rei. Se os arqueiros estiverem aqui este ano, então as terras do rei, o senhor, serão poupadas; mas se os arqueiros não estiverem aqui, as terras do rei, meu senhor, estão perdidas"[4]. Vários estudiosos, e a própria revista (p. 46) identificam os habiru ou apiru com os hebreus israelitas. Como já visto, o termo hebreu vem destas palavras, e era por elas que os egípcios e outros povos designavam o povo de Israel ( e. g., Êxodo 1.22). Assim sendo, a Arqueologia confirma que a conquista de Canaã pelos hebreus israelitas não foi pacífica como afirma a revista, pois os canaanitas pedem ajuda militar ao Egito.

Qual o Papel dos Primeiros Reis de Israel???
A revista afirma que não há registros histórico-arqueológicos da existência de Saul, e que ele seria mais um líder tribal do que um rei (p. 46).

A Arqueologia tem constatado que o uso do ferro na Palestina no período em que Saul viveu (século XI a.C.) era muito raro, sendo privilégio de poucos povos; e é justamente o que o relato bíblico afirma (1Samuel 13.19,20). E além disso, a cidade natal de Saul, Gibeá, foi identificada pela Arqueologia, inclusive a fortaleza que lhe pertenceu. A revista afirma que o reino de Saul seria um reino tribal, rústico. O relato bíblico não contradiz isto, pois mostra que eles não dominavam o ferro e outros tipos de tecnologia antiga. Portanto, vemos que a narrativa bíblica sobre Saul é digna de crédito histórico.

A revista cai no ridículo ao afirmar que não há evidências da vitória de Davi sobre Golias. No local de combate só havia dois exércitos em luta: o dos israelitas e o dos filisteus. O exército filisteu foi derrotado por um povo rústico e sem armamentos, que só se sentiu animado em lutar quando um jovem pastor de ovelhas chamado Davi derrotou um guerreiro experiente e monumental chamado Golias com uma pedrada na cabeça. Você acha que os filisteus registrariam uma derrota vergonhosa dessas? Mas é lógico que se você fosse do exército vencedor, registraria a sua vitória. Não havia outros povos ali no momento para registrarem esse acontecimento, portanto ele foi registrado pelo povo vencedor em I Samuel 17. A confiabilidade dos antigos hebreus como historiadores se verifica que eles não registravam apenas as vitórias de Israel, mas também suas derrotas; entretanto é sabido que a maioria dos povos da Antigüidade Oriental não costumavam registrar suas derrotas. Agora perguntamos quem são mais dignos de confiança: os relatos bíblicos ou os relatos egípcios, babilônicos, etc.?

O autor da matéria, Vinícius Romanini, parece não ter lido, nem superficialmente, a Bíblia para verificar se o que ele afirma é verdadeiro. Ele diz: "O principal indício de que as conquistas de David e o império de Salomão são, em sua maior parte, invenções é que, no período em que teriam vivido, a arqueologia prova que a cultura canaanita (que, segundo a Bíblia, teria sido destruída) continuava viva"(p.46). Em parte alguma da Bíblia fala que os canaanitas ou cananeus foram totalmente destruídos; ela relata que o povo de Israel liderado por Josué penetrou em Canaã conquistando apenas uma parte do território. Após a morte de Josué, no período dos Juízes (séculos XIV a XI a.C.), os israelitas não conquistaram o restante da terra, e se envolveram com a cultura canaanita: "Habitando, pois, os filhos de Israel no meio dos cananeus, dos heteus, e amorreus, e ferezeus, e heveus e jebuseus, tomaram de suas filhas para si por mulheres e deram as suas próprias aos filhos deles; e rendiam culto aos seus deuses", (Juízes 3. 5,6). Inclusive na época de Salomão, os cananeus ainda estavam no meio do povo de Israel: "Quanto a todo o povo que restou dos amorreus, heteus, ferezeus, heveus e jebuseus, e que não eram dos filhos de Israel, a seus filhos que restaram depois deles na terra, os quais não puderam destruir totalmente, a esses fez Salomão trabalhadores forçados, até hoje", (1Reis 9.20,21). Portanto, o autor da matéria afirma que a Bíblia diz que os cananeus foram destruídos, enquanto que a Bíblia não diz isso. Desta forma, o principal argumento que se tinha contra o relato bíblico sobre Davi e Salomão cai por terra.
Além disso, a matéria afirma que o reino de Salomão não passaria de um pequeno e pobre reino tribal, e que as construções que lhe são atribuídas foram construídas por reis posteriores, Omri e Acabe (chamado na matéria de Ahab). O autor da matéria desconhece ou omite que:

>> Na época do governo de Salomão, o Egito e outros Estados do Oriente Próximo não eram mais grandes potências conquistadoras; portanto Salomão teve liberdade para expandir seu reino;

>> A Arqueologia tem demonstrado evidência das atividades de Salomão nas cidades mencionada na matéria, Megido e Hazor, e também tem demonstrado que Omri e Acabe também edificaram nestas cidades; mas isto não significa que Salomão não tenha construído nada antes deles;

>> A Arqueologia tem demonstrado que o reino de Salomão tinha condições de ser tão próspero quanto a Bíblia o descreve, devido a vários achados em cidades do período, e em especial, pela localização das minas de cobre de Salomão nas proximidades Eziom-Geber, no atual golfo de Ácaba, que testemunham sua prosperidade;

>> A cidade de Jerusalém foi destruída terrivelmente pelos exércitos caldeus de Nabucodonosor, rei da Babilônia, em 586 a.C., o que explica porque o palácio e o templo que Salomão construiu não puderam ser identificados.

O autor da matéria parece realmente desconhecer o texto bíblico, pois afirma que Salomão reinou apenas em Judá, enquanto a Bíblia registra seu governo sobre as doze tribos; o autor também chama o reino de Omri de "primeiro grande Estado judaico"; ora, Omri era rei das dez tribos que se separaram de Judá após a morte de Salomão e vieram a formar o reino de Israel ao norte. Portanto, o reino de Omri não era um Estado judaico.

É estranho que a matéria dê crédito ao relato bíblico sobre Omri e Acabe, e não dê o mesmo crédito ao relato sobre Salomão, já que ambos os relatos vêm do mesmo livro, o Primeiro Livro dos Reis. Assim, vemos que o trabalho da Arqueologia, como outras ciências, está sujeito a interpretação pessoal dos estudiosos.

Ignorância ou Omissão?
Quando a matéria se propõe a falar sobre o reino de Judá, é mais nítido perceber que o autor não se deu ao mínimo trabalho de folhear a Bíblia para conferir se o que estava escrevendo condizia com o texto bíblico. A matéria afirma que o rei Josias (640-609 a.C.), querendo unificar as tribos de Israel com Judá, inicia uma reforma religiosa, colocando ardilosamente o livro de Deuteronômio no templo, pretendendo que este fosse tido como "achado". Diz a matéria: "Durante uma reforma no Templo em Jerusalém, em seu governo, foi "encontrado" (na verdade, não há dúvidas de que o livro foi colocado ali de propósito)o livro Deuteronômio, com todos os ingredientes para uma ampla reforma social e religiosa" (p. 47). Se o autor da matéria tivesse lido a Bíblia, e verificasse um pouco mais sobre o assunto do qual está tratando, teria constatado que:

>> Embora o teor da reforma de Josias estivesse mais baseado no livro de Deuteronômio, isto não significa que só este livro tenha sido achado, pois o texto bíblico fala que foi achado o Livro da Lei, que é uma designação específica para toda a Torá ou Pentateuco (2 Reis 22.8-10);

>> É puro preconceito dizer que o livro não foi achado, e sim colocado no interior do Templo com o propósito de incentivar uma reforma religiosa. Que provas o autor tem disso? O texto bíblico, e nenhum achado arqueológico, confirma esta afirmação. Porém, a Arqueologia confirma que achar livros durante a reforma do Templo não é nenhum absurdo, pois na Antigüidade se costumava colocar livros nos alicerces dos edifícios. É sabido que o rei babilônico Nabonido, no século VI a.C., costumava cavar os alicerces dos edifícios antigos de sua época, para reaver documentos ali enterrados. Assim, vemos que o texto bíblico tem sentido, enquanto a afirmação da matéria é mera suposição;

O autor mostra seu preconceito, parcialidade e ignorância sobre o que está escrevendo quando afirma: "O livro possui até profecias que afirmam, por exemplo, que um rei chamado Josias, da casa de David, seria escolhido por Deus para salvar os hebreus"(p. 47). Aqui vemos que Vinícius Romanini, autor da matéria, não deve nem saber o que é uma Bíblia! Se soubesse, teria constatado que:
- Em parte alguma do livro de Deuteronômio menciona o rei Josias. O livro possui até profecias, mas nenhuma menciona ou se aplica a Josias;

>> A profecia que diz respeito a Josias se encontra no Primeiro Livro dos Reis, capítulo 13, versículo 2: "Eis que um filho nascerá à casa de Davi, cujo nome será Josias, o qual sacrificará sobre ti (um altar idólatra erigido por Jeroboão I) os sacerdotes dos altos que queimam sobre ti incenso, e ossos humanos se queimarão sobre ti." A profecia não fala do salvamento dos hebreus, e sim que viria um rei chamado Josias, e que iria queimar os ossos dos sacerdotes idólatras sobre o altar de Jeroboão I (e isto realmente aconteceu; se a preguiça não o impedir confira em IIReis 23.15-20). Assim, vemos que o autor da matéria além de colocar a profecia no livro errado, trocou o assunto da profecia. É bom lembrarmos que I e II Reis foram escritos depois de Josias estar morto; sendo assim nem a profecia que leva o seu nome foi escrita a mando dele, como parece sugerir a matéria.
Podemos perceber, por tudo o que temos visto até agora, que a matéria A Bíblia Passada a Limpo é mais preconceituosa do que científica, pois seu autor não teve a coerência de procurar ser imparcial, verificando se o livro ou livros que pesquisou, não estavam enganados.

A impressão que se tem é que o autor, tal qual um papagaio, repetiu as conclusões de outras pessoas, sem verificar se eram ou não coerentes.

"Quem dizem os homens que sou eu?"
Marcos 8.27b
Esta pergunta de Jesus ainda ecoa muito forte hoje, e os homens têm tentado respondê-la, cada um a seu modo, chegando às mais idiferentes conclusões: "Jesus é um extraterrestre", "Jesus era um mago", "Jesus era um judeu polêmico", "Jesus nunca existiu", etc. Não muito diferente, a matéria A Bíblia Passada a Limpo procura dar sua opinião sobre Jesus Cristo.

E neste ensejo, o autor mostra ignorância científica e teológica sobre o assunto que está tratando. Diz o texto: "O problema central do Novo Testamento é que seus textos não foram escritos pelos evangelistas em pessoa, como muita gente supõe, mas por seus seguidores, entre os anos 60 e 70, décadas depois da morte de Jesus, quando as versões estavam contaminadas pela fé e por disputas religiosas" (p.42). Evidentemente que o autor não dá indícios para provar o que afirma. Que provas ele tem que os evangelistas em pessoa não escreveram os Evangelhos? Como ele prova que houve contaminações no texto? Se tivesse pesquisado teria descoberto que existem inúmeros papiros e pergaminhos do texto grego do Novo Testamento que confirmam que os Evangelhos são muito antigos. Além disso, testemunhos históricos que datam do século II d.C. identificam os evangelistas como autores dos livros que levam seus nomes. Estes testemunhos são muito convergentes entre si, devendo, pois, merecer crédito. O exame interno dos Evangelhos também confirma esses testemunhos. Por exemplo, o texto do evangelho de Mateus reflete que seu autor era conhecedor e tinha interesse em assuntos que envolviam dinheiro; isto condiz com a informação de que Mateus era cobrador de impostos. Outro exemplo: a tradição cristã nos informa que Lucas era médico; tanto no evangelho e como no livro de Atos dos Apóstolos, que são de sua autoria, encontram-se expressões e dados pertinentes à linguagem médica.

Apesar disso, as afirmações da matéria de Vinícius Romanini não reconhece os documentos do Novo Testamento como se fossem dignos de confiança para nos fornecer informações concretas sobre Jesus. Portanto o autor da matéria deve ignorar que:

>>o Novo Testamento é a coleção de documentos mais amplamente copiado e divulgado da Antigüidade, existindo mais 5300 manuscritos gregos antigos que têm sua confiabilidade demonstrada pelos princípios da Crítica Textual e da Papirologia. E confirmando isto, existem também 19300 manuscritos de versões, traduções e citações antigas. Nenhum documento da história antiga tem essa confirmação. Portanto, se rejeitarmos esses documentos, rejeitaremos tudo o que sabemos sobre o Mundo Antigo;

>>Os Evangelhos são a principal fonte de informação sobre Jesus. A Arqueologia, através da Papirologia e da Paleografia, tem demonstrado que os Evangelhos foram escritos na época em que ainda havia testemunhas vivas de Jesus, entre 40 e 100 d.C. Portanto, a afirmação da matéria de que os evangelhos foram escritos muitas décadas depois de Jesus não tem base histórica. Antigamente, os críticos datavam a redação dos Evangelhos em muitas décadas depois de Cristo. Porém, jamais chegavam a um acordo, pois essas datações dependiam das idéias preconcebidas de cada crítico. Agora porém, a datação dos Evangelhos baseia-se em evidências mais concretas, fornecidas pelo estudo da Papirologia aplicada aos fragmentos de manuscritos dos Evangelhos, inclusive os achados recentemente em Qumran, próximo da Mar Morto, Israel [5];

>>A Lingüística tem colaborado para confirmar a fidelidade histórica dos Evangelhos, verificando a base do idioma aramaico por traz do texto grego dos Evangelhos. O aramaico era a língua que Jesus e os primeiros pregadores cristãos falavam. Isto mostra que o texto escrito dos Evangelhos é a ressonância grega da pregação aramaica de Jesus e dos primeiros discípulos. Existe, pois, continuidade entre Jesus e o texto escrito dos Evangelhos; estes não são , portanto, invenções cristãs, mas o conteúdo da mensagem e ministério de Jesus Cristo tal qual nos transmitiram suas testemunhas;

>>As pesquisas arqueológicas, geográficas e históricas relacionadas com a época de Jesus têm colaborado para confirmar a fidelidade histórica dos autores dos Evangelhos; a própria matéria cita alguns lugares descritos nos Evangelhos e que foram estudados pela Arqueologia (p.49).

Ao afirmar que o texto do Novo Testamento sofreu inúmeras deturpações (p.42), o autor parece ignorar as evidências científicas da Crítica Textual e da Papirologia citadas acima.

O autor faz afirmações sobre Jesus que não pode provar, pois não condizem com o que se sabe de Jesus (p. 42):

" O que sabemos com certeza..." - Que certeza pode transmitir um autor que não conhece plenamente o assunto que está tratando? Quais são as bases dessa certeza?

"...é que Jesus foi um judeu sectário..." - O autor não pode afirmar que Jesus era um judeu sectário, pois ele não fazia parte de nenhuma seita de sua época, e por mais que ele confrontasse as tradições religiosas dos judeus, os Evangelhos mostram Jesus participando das tradições e instituições de seu povo: mandando pessoas aos sacerdotes (Mateus 8.4), reconhecendo algum valor positivo nos fariseus e escribas (Mateus 23.2,3), participando de casamentos (João 2.1-12) e das festas religiosas (João 5.1). Portanto, Jesus não era sectário; ele não se isolou de seu contexto sócio-religioso, como fizeram, por exemplo, as seitas essênicas.

"...um agitador político que ameaçava levantar dois milhões de judeus da Palestina contra o exército de ocupação romano." - Não podemos negar que houve questões políticas que determinaram a execução de Jesus. Porém, não podemos afirmar que ele mesmo era um agitador que estava preste a levantar uma multidão de judeus contra o jugo de Roma, pois ele mesmo disse: "Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus" (Mateus 22.21b). Se Jesus quisesse gerar tal insurreição, não teria lhe faltado oportunidade; em João 5.14,15 lemos: "Vendo, pois, os homens o sinal que Jesus fizera, disseram: este é verdadeiramente o profeta que devia vir ao mundo. Sabendo, pois, Jesus que estavam para vir com o intuito de arrebatá-lo para o proclamarem rei, retirou-se novamente, sozinho, para o monte." Se Jesus fosse o agitador político como descrito pela matéria, ele perderia uma oportunidade dessas de levantar o povo contra Roma? Sendo assim, pelo que foi exposto, as afirmações da revista são infundadas.

Joalsemar Araujo