Abraão nunca Andou de Camelo???
O texto de Superinteressante diz que há contradições
no relato bíblico sobre Abraão (Gênesis 12-25)
com o que se conhece pela História e pela Arqueologia da
época em que Abraão teria vivido ( c. 2000-1850
a .C.). Na realidade não há contradições,
e sim diferenças de interpretação dos dados
pelos arqueólogos. Diz a matéria :"...não
há registros de migrações de Ur em direção
a Canaã que justifiquem o relato íblico..."(p.
43). Mas é lógico que não há uma justificativa
humana ( comércio, fome, etc.) para a migração
de Abraão de Ur para Canaã: o texto bíblico
diz que Abraão saiu de Ur por ordem de Deus (Gn 12. 1-6)!!!
A Bíblia é o registro antigo que dá a justificativa
de Abraão ter saído de Ur para Canaã quando
as pessoas de sua época não faziam isso. Outra:
"...naquela época, os camelos ainda não haviam
sido domesticados" (p. 43). Isto dá a entender que
há um anacronismo (é o mesmo que dizer que D. Pedro
I andava de Fusca) que tira o crédito do relato. Mas a
revista não justifica suas afirmações dando
o motivo histórico-arqueológico do por que Abraão
não poderia ter usado o camelo como meio de transporte.
Na realidade não há provas definitivas contra o
uso do camelo na época de Abraão; esta hipótese
está baseada no fato de que os registros arqueológicos
mais antigos que conhecemos do uso do camelo como meio de transporte
são de 1200-1000 a.C., isto é, séculos depois
de Abraão. Porém, estes são os registros
mais antigos que conhecemos, o que não significa que sejam
os únicos registros existentes ou que antes desses registros
o camelo não havia sido domesticado. Se for assim, teremos
que afirmar que o registro mais antigo que temos do uso da escrita
foi o primeiro material a ser escrito, o que sabemos não
ser verdade. Além disso, existem evidências, que
embora insuficientes, indicam o uso bem remoto do camelo. No Egito,
na localidade de Fayum, foi encontrado um crânio de camelo
datando de 2000-1400 (o período dos Patriarcas e de Moisés).
Isto não
prova se ele era domesticado ou não, mas indica que ele
era conhecido na região onde Abraão percorreu, deduzindo-se
daí que o camelo deve ter sido usado como meio de transporte
na época de Abraão.
A matéria declara que "há erros geográficos:
lugares citados na viagem de Abraão, como Hebron e Bersheba,
nem existiam então. Hoje, a análise filológica
dos textos indica que Abraão foi introduzido na Torá
entre os séculos VIII e VII a.C." ( p. 46). Porém,
o autor da matéria só leva em consideração
uma posição, ignorando ou omitindo outras informações
vindas de vários achados arqueológicos que dão
base para a credibilidade histórica da narrativa bíblica.
Sumariando a conclusão de estudiosos de renome, como W.
F. Albright, Roland de Vaux e A. Parrot entre outros, citamos
Merril F. Unger: "...as alusões topográficas
nas histórias patriarcais coincidem exatamente com as indicações
arqueológicas da Idade do Bronze
Média (2000-1500 a.C.). De fato, tantas confirmações
de detalhes têm vindo à luz nas últimas décadas(...)
Por exemplo, lugares que aparecem em conexão com os movimentos
dos patriarcas (Abraão, Isaque e Jacó)(...)todos
se têm tornado conhecidos, devido a recentes escavações,
como sendo habitados na era patriarcal tais como Siquém,
Betel, Dotã, Gerar,Jerusalém(Salém) e provavelmente
Berseba (grafada Bersheba na revista). Hebron, no entanto, como
cidade, não existia na época de Abraão. Só
foi fundada "sete anos antes de Zoã no Egito"(Números
13.22), isto é, cerca de 1700 a.C. Antes disso, o lugar
se chamava Manre, e a menção de Hebron (Gênesis
13.18; 23.19) é uma nota explicativa para indicar onde
se localizava Manre" (Arqueologia do Velho Testamento, p.
58, Imprensa Batista Regular, 1985). Assim vemos que existem evidências
arqueológicas que comprovam a credibilidade da história
de Abraão, e existe uma explicação racional
e bíblica para o aparente anacronismo da menção
da cidade de Hebron no relato bíblico.
A revista diz que segundo a "análise filológica"
Abraão foi inventado para explicar a origem do povo hebreu
(p. 46).
A matéria, no entanto, não explica como é
feita essa análise, e omite ou desconhece a conclusão
sobre vários achados arqueológicos incluindo indícios
filológicos que mostram que o texto bíblico sobre
Abraão, embora escrito muito tempo depois, reproduz não
a época em que foi escrito, mas sim, a época de
Abraão. Citamos agora a conclusão de eminentes estudiosos:
"Abraão, Isaac e Jacó não parecem mais,
doravante, figuras isoladas, quanto menos reflexos da história
hebraica posterior; parecem atualmente verdadeiros filhos de sua
época, trazendo os mesmos nomes, deslocando-se sobre o
mesmo território, visitando as mesmas cidades (...), submetidos
aos mesmos costumes que seus contemporâneos", W. F.
Albright em L'archéologie de la Palestine, Paris, 1955
[ 1].
Usando a própria análise filológica podemos
chegar a uma conclusão favorável sobre a existência
de Abraão. Citemos o professor Walter Vogels da Universidade
Saint Paul em Ottawa, Canadá, autor do livro Abraão
e sua Lenda : "Poderíamos (no caso da hipótese
de construção fictícia tardia) perguntar-nos
se o personagem teria recebido o nome de Abraão. Nenhum
outro personagem bíblico o usa.
Se um personagem tivesse sido inventado, teria provavelmente recebido
um nome teóforo, composto com o nome Yah (abreviação
de Yahweh), como Hananyah (Ananias),Yermeyah (Jeremias), Hizqiyyah
(Ezequias). Tal nome teria sido mais mosaico e israelita do que
Abraão, que é um nome comum no Oriente Próximo
antigo". [2]
Assim vemos que a própria análise filológica
nos permite ter uma conclusão diferente do artigo de Superinteressante,
indicando que há credibilidade histórica para o
relato bíblico sobre Abraão.
Moisés, És ou Não
És???
Em sua incansável busca de erros históricos na Bíblia,
a matéria afirma (p. 44): "Não há qualquer
registro da existência de Moisés ou dos fatos descritos
no Êxodo. Aliás, boa parte dos reinos e locais citados
na sua jornada não existiam no século XIII a .C.
e só surgiram 500 anos depois. A escolha do lugar que passou
a ser conhecido como Monte Sinai ocorreu entre os séculos
IV e VI d.C. por monges bizantinos". Pensando assim, a matéria
conclui que Moisés, os princípios religiosos e o
culto descritos na Torá, ou Pentateuco, (os cinco primeiros
livros da Bíblia) teriam sido inventados por escribas do
Templo de Jerusalém no século VII a .C. para combater
a adoração de outros deuses além de Jeová.
Ora, Moisés não está apenas associado com
a religião judaica, mas com a fundação da
própria nação judaica . Como séculos
depois os "escribas do Templo de Jerusalém" inventariam
os fundadores de uma nação que já existia
há não muito tempo? O povo não lhes diria:
"Quem é Moisés?", "Quem são
Abraão, Isaque e Jacó?". Obviamente os escribas
passariam por mentirosos. Além disso, não é
apenas a Torá que menciona Moisés; quase todos os
demais livros do Antigo Testamento que são de autores,
épocas e lugares diferentes (portanto, não o produto
de um grupo específico de autores de uma época específica
que precisa inventar estórias) dão testemunho que
existiu tal indivíduo; negar a realidade histórica
de Moisés e do Êxodo é tornar inexplicável
toda a história
posterior de Israel.
O fato de não haver registro arqueológico ou histórico
da existência de Moisés depende da interpretação
que o autor da matéria dá à Bíblia,
à Arqueologia e à História. A Bíblia
é o registro antigo mais confirmado pela Arqueologia. Embora
a matéria mencione apenas o caso da batalha de Lachish
(pp. 45 e 47) como sendo um episódio bíblico confirmado
pela Arqueologia, existem muitos outros. Como exemplo, vejamos
o caso do rei assírio Sargão II (721-705 a.C.).
Até meados do século XIX d.C., a única informação
que tínhamos desse rei estava no livro de Isaías
20.1; por isso, alguns historiadores da época diziam que
jamais teria existido tal rei. Porém em 1843, Paul Emile
Botta deu início à descoberta do palácio
deste rei, e posteriores escavações comprovaram
não só a existência do rei Sargão II,
como trouxeram à luz o período de seu reinado, fazendo
dele um dos reis assírios mais conhecidos da História.
E antes disso ele só era mencionado na Bíblia.
É óbvio que os monumentos egípcios jamais
mencionariam sobre Moisés e os eventos do Êxodo.
Os faraós e outros monarcas da Antigüidade não
registravam suas derrotas; mas erguiam monumentos às suas
vitórias. Que faraó, os quais se consideravam como
deuses, registraria ter sido derrotado por um povo de escravos?
Não é de se estranhar que não haja outros
registros antigos sobre a pessoa de Moisés além
da Bíblia. É fato conhecido pelos historiadores
que grandes líderes religiosos e filosóficos da
Antigüidade somente são mencionados por outras fontes
após seus ensinos terem alcançado um certo número
de adeptos capaz de chamar a atenção da sociedade;
isto se dá com Sócrates, Buda, Jesus, etc.
Apesar de a revista mencionar que não há confirmação
histórico-arqueológica para as pessoas e os relatos
descritos no Êxodo, existem indícios lingüísticos,
históricos e arqueológicos que mostram que a história
da estada e da saída do povo de Israel do Egito não
é lenda:
>> O uso de nomes, títulos e expressões egípcias
encontradas na Torá tem sido confirmado pela Egiptologia,
e demonstra que o autor da Torá deve ter sido educado em
ambiente egípcio e escreveu para um povo familiarizado
com este mesmo ambiente, o que é o caso de Moisés
e do povo de Israel no período do Êxodo, que teria
se dado durante o Novo Império Egípcio (1546-1085
a.C.);
>> Cidades com nomes semitas mencionadas em Êxodo
como Sucote (12.27), Baal-Zefom, Migdol(14.2), etc. têm
sido confirmadas pela Arqueologia, a qual atesta que no período
do Êxodo a região em torno do delta do Nilo (que
inclui a região de Gósen, onde estava o povo de
Israel) era habitada também por vários povos semitas.
Portanto, mais um testemunho em favor da veracidade do texto bíblico;
>> As condições climáticas referidas
no Êxodo são particularmente do Egito e não
da Palestina (a seqüência da colheita era diferente
entre estas regiões, Êxodo 9.31,32). Portanto, o
autor conhecia bem o Egito;
>> As referências geográficas da Palestina
são comparadas com as referências geográficas
do Egito (Gênesis 13.10; Números 13.22) dando a entender
que os leitores não conheciam bem a Palestina, mas conheciam
bem o Egito;
>> O uso do nome divino "Senhor dos Exércitos".
Ao se datar documentos literários se verifica quais os
termos-chave usados na época em que o escritor executou
seu trabalho, para assim poder se determinar a data do escrito.
No caso de livros religiosos, os títulos pelos quais Deus,
deuses, santos, etc. são mencionados podem determinar a
data da composição de determinado livro. Se a Torá
tivesse sido escrita na época que a revista menciona (século
VII a.C.) com certeza ela mencionaria o nome divino mais referido
da época: Senhor dos Exércitos. Se ela mencionasse
tal título divino, a teoria publicada na revista teria
grande chance de estar certa, pois na época de Moisés
este nome não era usado. E é justamente o que ocorre.
De Gênesis a Deuteronômio, isto é, em toda
a Torá, não é referido uma vez sequer o nome
Senhor dos Exércitos, indicando assim que a Torá
é bem anterior à data publicada na revista.
Muitos outros exemplos podiam ser dados, mas estes são
suficientes para podermos perceber que existem indícios
histórico-arqueológicos para a existência
de Moisés e para a confiabilidade histórica da Torá.
Em relação ao Monte Sinai, diz a revista que este
local não existia e que só foi identificado mais
tarde. Ora, a região do deserto do Sinai (hoje conhecida
como Península do Sinai) é bem conhecida desde a
Antigüidade. Nela, os antigos egípcios trabalhavam
com mineração. O texto bíblico diz que o
povo entrou na região do deserto do Sinai e acampou diante
de um monte também chamado Sinai e que nele Moisés
recebeu os Dez Mandamentos (Êxodo 19 e 20).
Quem conhece a geografia da região sabe que, na realidade,
não existe aí um único monte, mas vários.
Qual deles seria o monte que Moisés subiu ? Não
podemos determinar com certeza, pois o texto bíblico não
nos informa a latitude, a longitude, a altitude, a silhueta do
monte para o identificarmos. E por que deveria? Qual seria a utilidade
dessas informações? Na época em que o texto
bíblico foi escrito, o monte exato, com certeza, era conhecido,
e portanto, outras referências geográficas são
naturalmente dispensáveis. Se os monges bizantinos do século
IV d.C. identificaram um monte como sendo o mesmo que Moisés
subiu, isto é um caso pessoal deles, e isto em nada tira
o crédito da narrativa bíblica. E até a História
Natural dá indícios da verdade histórica
contida na Bíblia: árvores e animais mencionados
na Torá (e.g.: acácia e tahash, espécie de
animal marinho, Êxodo 35.7) não se encontravam na
Palestina, mas se encontravam particularmente no Egito e na região
de Sinai e no mar entre ambos. A ovelha montesa, o antílope
selvagem (Deuteronômio 14.5) e a avestruz (Levítico
11.16) são peculiares a península do Sinai. Concluímos
com as palavras do Dr. Gleason Archer, especialista em Antiguidades
Orientais: "É difícil imaginar como uma lista
desse tipo poderia ter sido feita nove séculos depois,
após o povo de Israel ter vivido todo esse tempo numa terra
que não tinha nenhum desses animais"[3]. Assim vemos
que temos evidências suficientes para crermos que o povo
de Israel esteve na região do Sinai, embora não
possamos determinar com certeza qual monte Moisés subiu.
A revista diz que muitos reinos e locais descritos na narrativa
bíblica não existiam na época em que se teria
dado o Êxodo, que teria sido no século XIII a.C.
Como a revista não especifica que reinos e locais seriam
estes, somos obrigados a concluir que a matéria se refere
aos antigos reinos de Edom, Moabe e Amom, com os quais Israel
teve que se deparar durante sua peregrinação pelo
deserto. Porém, a Arqueologia tem demonstrado que entre
1900 e 1300 a.C. (séculos XIX a XIV) na área destes
reinos houve uma interrupção de vida em cidades,
não havendo vestígios de civilização.
Mas a partir do século XIII houve um reflorescimento de
sua civilização. Portanto, se o Êxodo se deu
no século XIII a.C., como diz a revista, estes reinos já
existiam. É bom lembrar que o século XIII não
é a única data que os estudiosos dão para
o Êxodo. Há muitas evidências bíblicas,
históricas e arqueológicas que situam o Êxodo
no século XV a.C. Mesmo assim, a ausência de urbanização
desses reinos não significa que eles não existiam
no período, pode também significar que não
possuíam um estágio de civilização
capaz de deixar grandes vestígios; seriam reinos semi-nômades,
fato historicamente compreensível.
A matéria diz que locais mencionados no texto bíblico
não existiam, mas ela não dá evidências
que comprovem o que ela afirma. O fato de não se poder
identificar hoje muitos dos locais mencionados não significa
que eles não existiram. Não podemos esquecer que,
independente
de se crer ou não que a Bíblia é a Palavra
de Deus, ela é o registro histórico antigo mais
bem confirmado pela Arqueologia. Portanto é racional que
demos crédito a este livro que tem se mostrado digno de
confiança em seus relatos históricos. A Arqueologia
localizou as cidades egípcias de Pitom (Tel er-Retabé)
e Ramsés (Tânis) mencionadas em Êxodo 1.11.
O relato da travessia do povo de Israel pelo deserto menciona
vários fenômenos da Natureza que se dão na
área mencionada pela Bíblia, como por exemplo o
aparecimento das codornizes (Êxodo 16.3; Números
11.31-35).
Embora a revista afirme que tudo não passa de lenda, ela
procura explicar cientificamente as dez pragas do Egito como um
desastre ecológico (p.45). Ela alista uma possível
explicação para cada uma das pragas, mas não
explica por que esses fenômenos teriam acontecido numa mesma
época, e um atrás do outro. Que fator teria desencadeado
esses fenômenos? A própria revista reconhece que
a praga do granizo pode ter ocorrido e é um fenômeno
raro. O fato de essas pragas serem típicas da região
reforça a veracidade do texto bíblico de que o autor
da Torá conhecia sobre do que estava falando. O mais interessante
é em relação à explicação
sobre a morte dos primogênitos. A explicação,
que se apresenta como racional, é tão imaginativa
como qualquer lenda. Os primogênitos podiam ser os primeiros
a comer, mas não os únicos. Assim todos os que comeram
do alimento intoxicado deveriam ter morrido, não só
os primogênitos. Para justificar esta incoerência
a matéria diz que isto se deu num tempo de escassez, assim
os primogênitos teriam tido preferência na alimentação.
Pura imaginação.
Assim, vemos que o autor da matéria não fez uma
matéria totalmente digna de crédito, visto mostrar
só um lado da questão.
Joalsemar Araujo