Bíblia Sagrada: verdade ou mentira I
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Origens E Reflexões
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Diácono, Professor de Escola Biblica Dominical e Bibliologia do Seminário Vida Nova.

 
   

 

REVISTA SUPERINTERESSANTE PÕE EM DÚVIDA FATOS E
PERSONALIDADES BÍBLICAS


A revista Superinteressante de julho de 2002 trazendo a matéria "A Bíblia passada a limpo" de Vinícius Romanini retomou antigas perguntas: "É a Bíblia digna de confiança? Podemos confiar que os fatos e as pessoas nela mencionados realmente aconteceram e existiram? A História e a Arqueologia têm provado que a Bíblia é falsa?" A matéria afirma que "descobertas recentes da arqueologia indicam que a maior parte das Escrituras Sagradas não passa de lenda" (p. 41). A base de tal afirmativa é principalmente o livro The Bible Unearthed (A Bíblia Desenterrada) do arqueólogo israelense Israel Finkelstein, que advoga (segundo a matéria) que as narrativas do Antigo Testamento são na realidade lendas inventadas pelos escribas e rabinos judeus a partir do século VII a.C. para explicar teologicamente a terrível experiência que os judeus estavam vivendo no exílio babilônico, e com isso transmitir-lhes consolo. Em relação ao Novo Testamento a matéria traz informações valiosas sobre o contexto histórico dos primórdios do Cristianismo, mas relata que Jesus não seria mais do que um sábio judeu polêmico que teria sido elevado a algo mais do que isso por seus seguidores; sendo assim o Jesus histórico seria diferente do Jesus da fé: "...a figura de Jesus sumiu na névoa religiosa" (p. 42).

Mas será que essas afirmativas são inquestionáveis? Será que tais conclusões encerram definitivamente o assunto? Não, não encerram. Existem evidências históricas e arqueológicas que dão base para continuarmos a crer na Bíblia como digna de confiança também no que diz respeito aos personagens e relatos históricos que descreve. Veremos a seguir o outro lado da história que a matéria não mostra.

Fé versus Ciência???
Em sua introdução à matéria Vinícius Romanini afirma:
"...os cientistas estão provando é que o livro mais importante da história é, em sua maior parte, uma coleção de mitos, lendas e propaganda religiosa" (p. 41). Quem lê estas palavras sem a devida reflexão conclui que há contradição entre a Bíblia e a Ciência. Ou se crê em uma, ou se crê na outra. Na realidade, não há contradição entre a Bíblia e a Ciência, e sim, entre a Bíblia e alguns cientistas. As contradições entre a Bíblia e a Ciência dependem da interpretação pessoal dos cientistas e teólogos em relação aos dados da Bíblia e aos dados científicos. Vários cientistas têm estudado o Cosmo e chegado à conclusão de que existe um Ser Superior que teria criado o Universo; outros, estudam o mesmo Universo e continuam crendo que não existe nenhum Ser Superior. Onde está a contradição? No Universo ou nos cientistas? A matéria cita o famoso caso de Galileu Galilei (1564-1642) que foi obrigado pela Igreja Católica Romana a renunciar as suas descobertas por estas estarem em "contradição" com a Bíblia (p. 41).

Na realidade as descobertas de Galileu não contradiziam a Bíblia, e sim a uma interpretação errada que os teólogos da época davam à Bíblia, querendo fazer dela um manual sobre todos os assuntos científicos. O próprio Galileu não desmereceu a Bíblia e a Teologia, mas entendia que a Ciência atuava em um campo diferente (e não oposto).

Em sua carta à grã-duquesa Cristina de Lorena Galileu defende que para os fatos que transcendem o conhecimento humano se faz necessário recorrer à revelação divina; mas para os fatos que podemos conhecer racionalmente podemos usar a inteligência que Deus mesmo nos deu para chegarmos ao conhecimento. Galileu cria que a Bíblia não deve ser interpretada de maneira contrária a comprovadas doutrinas científicas; ou seja, para ele Ciência e Religião se complementam, uma ajudando a esclarecer a outra. A Bíblia mostra o por que Deus fez, enquanto a Ciência mostra o como Deus fez . Portanto não há contradição entre a Fé e a Ciência, e sim entre as interpretações de teólogos e cientistas.

Enchente ou Dilúvio???
A matéria de Vinícius Romanini diz que "ruínas achadas no Mar Negro, próximo da Turquia, mostram que houve uma enchente catastrófica por volta de 5600 a .C. O nível do Mar Mediterrâneo subiu e irrompeu pelo Estreito de Bósforo, inundando a planície onde hoje está localizado o Mar Negro. Na época, a região era uma planície de terras férteis com um lago. Sobreviventes dessa catástrofe migraram para a Mesopotâmia. Assim teria surgido a história do dilúvio no texto sumério de Gilgamesh. Os hebreus conheceram a história quando estiveram cativos na Babilônia" (p. 44). Esse e outros trechos da matéria concluem que o relato do dilúvio contido no livro bíblico de Gênesis na realidade teria sido adaptado pelos escribas judeus da lenda sumério-babilônica de Gilgamesh (que teria sobrevivido a um dilúvio enviado pelos deuses) para dar um sentido teológico ao cativeiro dos judeus na Babilônia, e dar-lhes uma mensagem de esperança. Primeiramente, é bom observar que a própria matéria diz que essa teoria da enchente do Mediterrâneo "foi recebida por arqueólogos e antropólogos como fantástica demais para ser verdadeira"(p. 43). Além disso, os hebreus já tinham contato com a Mesopotâmia muito tempo antes do Exílio, e já deveriam conhecer a lenda de Gilgamesh antes de irem para a Babilônia, e não durante o exílio como afirma a matéria. É verdade que existe muitas semelhanças entre o dilúvio relatado em Gênesis e a lenda de Gilgamesh, mas isso não quer dizer que os hebreus teriam copiado dos mesopotâmicos, pois existem também grandes diferenças nos relatos, tanto em detalhes, como em teologia e ideologia. É mais lógico entender que ambos os relatos surgiram independentes, mas baseados numa mesma catástrofe que teria ocorrido num passado remoto. A revista cita cientistas que vêem o dilúvio como localizado apenas na Mesopotâmia e abrangendo apenas os povos residentes no Oriente Próximo. Mas como se explica que povos tão distantes da Mesopotâmia como a primitiva tribo dos quurai na Austrália, os habitantes das ilhas Fiji, os aborígines da Polinésia, Nova Guiné, Nova Zelândia, os antigos celtas do País de Gales, tribos do Lago Caudie no Sudão, os hotentotes, algumas tribos no Brasil, entre outros povos (gregos, hindus, chineses, etc.) tenham uma tradição comum de um dilúvio de proporções universais que teria eliminado a raça humana, a não ser uns poucos sobreviventes? Embora essa tradição varie em detalhes de povo para povo, todas têm um esboço comum: A raça humana teria sido destruída por um grande dilúvio causado pelo desagrado divino em face do pecado humano, e que um homem com sua família e alguns amigos, teriam sido salvos por meio de um barco ou instrumento semelhante ou um alto monte ( seria o Ararate? Ver Gênesis 8.4) e que deles teria recomeçado a história humana. Vê-se, portanto, que algo de catastrófico aconteceu no passado da Humanidade, e não apenas uma enchente local na Mesopotâmia ou no Mar Negro. Essas evidências favorecem o relato do Gênesis, onde Noé e sua família são apresentados como antepassados não só dos hebreus, mas de toda a raça humana subseqüente, com suas diversas etnias. Isto explica como povos tão distantes uns dos outros mantém uma tradição comum, isto é, descendem de uma única família que, ao espalhar-se pelo mundo, foi preservando e adaptando o terrível incidente do passado. Para aqueles que crêem que a Bíblia é a Palavra de Deus o relato do Gênesis é o que preserva a verdade dos fatos.

Joalsemar Araujo