Nós pecamos porque somos pecadores ou
somos pecadores porque pecamos? A Teologia, através da
disciplina Hamartiologia (o estudo sobre o pecado; do grego hamartia
= pecado e logia=estudo), vem debatendo ao longo dos séculos
esta questão. A Bíblia responde: "...
todos estão debaixo do pecado. Como está escrito:
não há um justo, nenhum sequer (...) pois todos
pecaram e destituídos estão da glória de
Deus", Romanos 3.9,10,23. "Pelo que, como
por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte,
assim a morte passou para todos os homens, porque todos pecaram",
Romanos 5.12.
Ou seja, pecamos porque somos pecadores. A
macieira não produz maçãs por causa da educação,
da política, dos pais (a famosa culpa do meio em que se
vive)...e sim porque é próprio dela produzir maçãs.
E assim é com cada pessoa: já nasce com a natureza
corrompida pelo pecado e produz o "fruto" que lhe é
próprio.
Porém, o pecado não tem a última
palavra nesta história. Deus enviou seu Filho Jesus o qual
morreu para nos salvar e dar-nos uma vida abundante. Em vez de
fazer uma "reforma moral", apenas ditando normas de
comportamento, Deus trata o problema na raiz, fazendo com que
todo aquele que crê e recebe seu Filho nasça de novo,
só que desta vez com uma nova natureza, a natureza divina:
"Aquele que nasceu de Deus não vive na prática
do pecado, porque a semente de Deus permanece nele; não
pode continuar pecando porque é nascido de Deus",
1João 3.9.
O pecado na vida daquele que nasceu de Deus
acontece, digamos, por "acidente": "Meus
filhinhos estas coisas vos escrevo para que não pequeis.
Se, porém, alguém pecar, temos um Advogado para
com o Pai, Jesus Cristo, o Justo", 1João 2.1.
E assim vamos seguindo nossa vida, cantando
"caminhando eu vou para Canaã".
Vimos então porque pecamos. Vimos que
podemos ter vitória sobre o pecado. E na nossa jornada
cristã prosseguimos procurando errar o menos possível.
Porém, hoje me faço uma pergunta. Porque nós
não pecamos? Isto é, quando estamos, em alguma circunstância,
diante de uma bifurcação em que temos que escolher
entre a santidade e o pecado, entre o obedecer e o desobedecer,
porque escolhemos a santidade? Porque escolhemos a obediência?
O motivo do porquê às vezes se escolhe o pecado parece
óbvio: "cedeu à carne", "não
vigiou", "preferiu os prazeres", "deu brecha",
"a pressão dos fatos forçaram-no", etc.
Mas, e quando agimos certo? Porque agimos assim? É fruto
da nossa nova natureza? Medo de ser castigado? Espera por uma
recompensa? Amor a Deus? O motivo do porquê resistimos às
tentações é tão importante como resisti-las.
Tem se percebido algumas tendências na conduta dos crentes.
Muitas vezes não se peca por medo do
Diabo. Alguns livros de Batalha Espiritual enfatizam o não
pecar, pois isso pode abrir "porta de legalidade" e
o Diabo pode nos destruir. Por isso, muitos não pecam,
não por que isso ofende a Deus, mas por medo de isto dar
legalidade ao Diabo para poder nos destruir. E se o Diabo não
pudesse nos destruir? Poderíamos pecar? É evidente
que o Diabo pode nos arruinar quando damos brecha, e a própria
Bíblia nos diz para não darmos lugar para ele (Efésios
4.27), mas a raiz da santidade tem uma profundidade maior do que
o medo do que o Diabo pode nos fazer.
Muitas vezes não se peca por medo de
perder as bênçãos. O capítulo 28 de
Deuteronômio nos ensina que a obediência tem como
conseqüência a benção e a desobediência
a maldição. Embora isso seja verdade, muitas vezes
a compreensão dessa verdade é prejudicada pela visão
distorcida que se tem das bênçãos, limitando-as
ao plano material: "Não peque porque você pode
perder o emprego", "Não peque porque você
vai adiar a benção de Deus", "Se você
obedecer você vai se dar bem, se não obedecer vai
se dar mal". É incontestável que a obediência
e a desobediência tem conseqüências; é
a lei da semeadura (Gálatas 6.7-9). É salutar avaliarmos
as conseqüências do que fazemos; faz parte da pedagogia
divina nos alertar sobre o que resulta nossa desobediência
(1Coríntios 10.1-13). Porém, se obedecemos somente
por medo das conseqüências, isto revela imaturidade
espiritual.
Por incrível que pareça muitas
pessoas só obedecem a Deus e não querem o pecado
em suas vidas por medo de Deus. Quantas pessoas foram e são
criadas escutando frases do tipo: "Se você fizer isto
Deus vai te castigar!", "Se você não obedecer
vai para o Inferno!". Como costuma dizer o Pr. Ezequiel Teixeira
para muitos cristãos Deus é um xerife, fiscalizando
implacavelmente cada ato da vida de seus filhos para que possa
aplicar-lhes a devida penalidade. Quem pode viver em paz se a
qualquer momento um "raio divino" pode cair em sua cabeça?
O medo da opinião dos outros. O que
as pessoas pensam de nós é importante, pois nos
ajuda a avaliarmos a nossa conduta. Porém, se a motivação
de obedecermos for somente manter uma aparência, ou temer
a opinião pública, ou o medo de sermos excluídos,
nossa obediência será falha. Se somente obedecemos
na presença de alguém, quem seremos nós quando
estivermos sozinhos? "É bom ser zeloso, mas
sempre do bem, e não somente quando estou presente convosco",disse
Paulo aos gálatas (Gálatas 4.18). O filósofo
grego Epicuro (341-270 a.C.) formula um pensamento muito interessante:
"O homem que tenha alcançado o fim (propósito)
da espécie humana será honesto mesmo que ninguém
se encontre presente". Será que existe povo que tenha
motivos para dizer que alcançou o sentido da vida melhor
do que os cristãos? Não cremos e cantamos que nossa
vida é Cristo e que temos que viver para Deus?
Então qual deve ser a raiz da nossa
obediência? Qual deve ser o verdadeiro motivo que nos leva
a não pecar?
Tanto o Antigo quanto o Novo Testamento resumem
a obediência a Deus em um só mandamento: o de amar
a Deus acima de todas as coisas. Jesus disse que nosso amor por
ele é medido pela guarda de seus mandamentos (João
14.21). Portanto, é o amor a Deus que deve ser a raiz da
nossa obediência. Quando me defrontar com o pecado, devo
não ceder não por medo do Diabo, dos homens, ou
mesmo de Deus, e sim por amor a ele; por entender que quando peco
eu o ofendo, eu o entristeço, eu o ultrajo; o pecado pode
me afastar de Deus, e por amá-lo não vou pecar,
pois isto me afasta dele. Não devemos pecar por medo, pois
o perfeito amor lança fora todo medo: "No amor
não há medo. Antes o perfeito amor lança
fora o medo, porque o medo produz tormento. Aquele que teme não
é aperfeiçoado em amor" (1João
4.18). E se tivermos que temer alguma coisa que seja o vivermos
longe da presença de Deus.
Amado, que eu e você venhamos amadurecer
em amor a Deus e assim viveremos uma vida reta, santa, que agrade
a Deus.
Graça e Paz.
Joalsemar Araújo