Quem sabe Vasti recusou a petição do rei por estar se sentindo farta de tudo, cansada daquela vida cheia de obrigações e regras? Talvez, no fundo, ela quisesse apenas liberdade, ser livre para fazer o que bem entendesse.
Alguma vez você já se sentiu assim, com vontade de desistir de tudo, de viver de acordo com a própria vontade, sem ter de pensar em ninguém além de si mesma? Quem nunca passou por isso? Quem nunca teve esse desejo súbito de liberdade? Mas sabe de uma coisa, esse tipo de liberdade não é real, não é verdadeira, porque quando amamos alguém, quando temos um alvo, um objetivo nobre na vida, desejamos estar presente para ter certeza de que tudo dará certo. Desta forma nos tornamos presos a nossa motivação, à obrigação de fazer o que deve ser feito, ao compromisso de amar, de zelar pela felicidade das pessoas que confiam em nós. No entanto, há fases na vida em que queremos “chutar o balde”, simplesmente porque os problemas, as lutas, nos confundem e ofuscam nossos verdadeiros sonhos, nossas reais motivações.
Não foram poucas as vezes em que eu tive de deixar de lado coisas que eu queria muito fazer para atender a um pedido de meu marido, ou para estar ao lado de minha filha, ou para preparar algo relacionado à Igreja. Então, eu cumpria meu dever de mãe, de esposa, de serva de Deus, e surgiam mais deveres, mais obrigações, outros compromissos, responsabilidades novas, sem contar com uma infinidade de críticas. Eu queria desistir mas não podia, queria fugir mas isso seria impossível, e sabe por quê? Porque eu estava presa a um chamado.
Toda pessoa tem um chamado específico, mas coube à mulher o mais rico de todos os chamados, o de amar incondicionalmente a sua família. Esse chamado é mais forte que a vontade de jogar tudo pro alto e desistir. Por isso, imagino que a rainha Vasti não tenha pensado bem a respeito do seu chamado, de sua missão como rainha e, num ímpeto, extravasou seu cansaço com aquela atitude com o rei.
Neste último capítulo quero alertá-la a esse respeito, para que não se deixe levar pelo cansaço, pelo desânimo, pela sensação de perda, porque todas essas sensações não passam de uma fase, de um período de prova que não durará para sempre. Vasti provavelmente não entendeu isso, sentiu-se prisioneira de toda aquela situação e resolveu erguer sua bandeira de liberdade, não avistando o que de fato importava: o seu incontestável valor como rainha de todo um reino.
Muitas esposas também não se dão conta da valorosa posição que ocupam em seu lar, se achando prisioneiras de todas aquelas obrigações, quando na verdade estão ocupando um lugar que não poderia ser dado a qualquer pessoa.
Mas o que devemos fazer nesses dias de esgotamento, de medo, de tensão e, às vezes, de muita depressão? Em primeiro lugar, é bom atentarmos para o fato de que Jesus quando esteve aqui na Terra, em forma de homem, também passou por essa crise, a ponto de declarar aos seus discípulos:
E, levando consigo a Pedro, Tiago e João, começou a sentir-se tomado de pavor e de angústia. E lhes disse: A minha alma está profundamente triste até à morte (Mc 14:33-34).
Ele sentia a dor do desgaste que as circunstâncias vinham lhe causando, entretanto, não desistiu porque escolheu ser fiel ao amor que tinha por nós: Igreja, povo amado, nação santa, geração eleita para o sacerdócio real:
Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz (1 Pe 2:9).
Compreende a profunda beleza escondida pelas crises? É algo indescritível, porque tem a ver com o que Deus concede aos que persistem nEle, orando, clamando, insistindo em crer na Sua promessa de vitória:
Quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao que vencer darei eu a comer do maná escondido e dar-lhe-ei uma pedra branca, e na pedra um novo nome escrito, o qual ninguém conhece senão aquele que o recebe (Ap 2:17).
O maná escondido começa a ser oferecido aos fiéis de Deus ainda aqui na Terra, são as bênçãos, as promessas de que tanto a Bíblia fala:
•O Senhor resgata a alma dos seus servos, e nenhum dos que nele confiam será condenado (Sl 34:22).
•Os filhos dos leões necessitam e sofrem fome, mas aqueles que buscam ao Senhor de nada têm falta (Sl 34:10).
•Porque a sua ira dura só um momento; no seu favor está a vida; o choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã (Sl 30:5).
•Ainda antes que houvesse dia, eu sou; e ninguém há que possa fazer escapar das minhas mãos; operando eu, quem impedirá? (Is 43:13).
Quando Ester foi escolhida para ser rainha, o seu povo, a sua casa estavam em crise, imagine se ela tivesse deixado se levar pelo medo, pela aflição daqueles dias. Ou, se Mordecai, desesperado com tudo o que estava acontecendo, perdesse as esperanças, deixasse de crer que Deus lhes daria vitória, certamente ele influenciaria de modo negativo a sua sobrinha Ester, e nenhum dos dois saberiam o que fazer a não ser se afligir pelas circunstâncias.
A Bíblia nos conta sobre o sofrimento de Mordecai:
Quando soube Mordecai tudo quanto se havia passado, rasgou as suas vestes, e se cobriu de pano de saco e de cinza, e, saindo pela cidade, clamou com grande e amargo clamor (Et 4:1).
Ele chorou, ficou triste, ficou de luto, mas não desistiu de crer que Deus ainda faria algo. E o Senhor usou Hataque, um dos eunucos do rei, para levar até Ester as palavras de Mordecai. Deste modo, iniciou-se a ação de Deus em favor do povo judeu, um povo que morreria se não fosse a firmeza da rainha Ester.
Podemos sentir tristeza, angústia, um enorme cansaço a respeito de tudo a nossa volta, mas o que não podemos, de forma alguma, é parar. Deus não pode agir, cumprir as Suas promessas sobre a vida de mulheres estagnadas. Estar estagnada é aceitar o tempo de choro como sendo algo definitivo, é concordar que a situação de luta não vai mudar. Ao concordarmos com estas coisas assumimos uma posição de incredulidade diante de Deus, dizemos que duvidamos de que alguma coisa possa mudar, ou seja, não cremos no que Jesus ensinou sobre impossibilidade:
Jesus, fitando neles o olhar, disse-lhes: Isto é impossível aos homens, mas para Deus tudo é possível (Mt 19:26).
Em nenhum momento a Palavra de Deus diz que não teremos dificuldades, o próprio Jesus disse que no mundo passaríamos por aflições. Mas uma coisa é passar por aflições, outra é se deixar envolver por elas, e algumas pessoas se envolvem a ponto de esquecerem quem realmente são. Quem é você? Você é aquela que Deus escolheu para ser sábia, mulher virtuosa, alguém capaz de realizar grandes feitos, ainda que os dias sejam maus. Você é aquela que não vive choramingando, demonstrando fraqueza, mesmo que tenha de caminhar por alguns vales, pois compreende que eles logo ficarão para trás, porque a vereda dos justos é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito (Pv 4:18).
Se precisar chorar, chore, mas faça isso diante do Senhor, pois ninguém conhece melhor as suas necessidades do que Ele. Não fique estagnada nos dias de tristeza, mas siga em frente contando ao Pai tudo o que lhe aflige. Porque o amor de Deus por você não acaba, tampouco a Sua paciência, então, descanse nEle. Descansar no Senhor é deixar de lado a ansiedade, a preocupação, e pela Palavra de Deus manter-se firme na certeza de que a vitória é só uma questão de tempo. Você é eleita de Deus para ocupar lugares sublimes, e este lugar começa dentro de sua própria casa.
Os tempos de aflição não são para sempre, mas os feitos de uma mulher virtuosa, estes tocam o céu e produzem bênçãos para várias gerações.
Pastora Márcia Teixeira |